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29 de agosto de 2009

*perfil - Mulher despadronizada


CONSCIÊNCIA - Eu me sinto negra por dentro e por fora | imagem: Val da Costa | desenho: Marley Lucena

por Val da Costa

Eu não sigo a moda que a TV prega, acho brega. Eu não acredito em ninguém que o dinheiro compre. Eu não uso chapinha direto. Eu não ando de salto alto sempre e nem por isso me sinto menor do que quem usa. Eu não uso calças padronizadas, etiquetadas e de grife. Eu não compro tudo o que vejo e tenho somente um relógio. Eu não faço coleção de calçados. Eu não compro roupas mensalmente somente pra lotar meus cartões e cheques. Eu não devo mais do que ganho, pois entendo o equilíbrio desta máxima. Eu vou ter um carro por necessidade, não pra fotografar e colocar no Orkut, pois tenho noção do quanto ele irá poluir o meio ambiente com seus gases. Eu vou ter uma casa, mas ela não será meu “sonho de consumo realizado” porque ela é fixa. Eu não gosto de auto-ajuda e sim de filosofia. Eu não vou publicizar o nascimento do meu filho num outdoor porque ele não está à venda. Eu não vou construir uma piscina se eu tenho consciência de que a água do planeta vai acabar. Eu não sou escrava de ninguém e não temo o desemprego por acreditar que trabalho só falta para quem não procura, não tem nada de qualidade e pra quem não é empreendedor. Eu não sirvo a um homem, mas amo um e convivo com ele de forma honesta, justa e harmoniosa. Eu não faço os gostos do meu filho quando ele não merece. Eu não sou parecida com outras mulheres, pois não sigo padrões sociais, profissionais e de consumo. Eu me sinto negra por dentro e por fora. Eu acho que sexualidade deve ser conversada, apesar de concordar que sexo não é política, mas é uma besta selvagem que precisa ser encarada na adolescência.

Apesar de ser assim,
respeito os outros que não são
(nem agem, nem pensam)
como eu.

4 comentários:

xistosa - (josé torres) disse...

"Puxa minina"!!!
Isto é que é ter os pés assentes no chão e a cabeça na Terra.
Talvez conheça alguém parecido.
Só possuo um relógio Seiko, muito velhinho que me acompanhou na guerra de Angola em 1970.
E um, de colecção, que me ofereceram, mas que não gosto de exibir.
As marcas de roupas não sobreviveriam com consumidores como eu.
A casa é um abrigo e o carro, agor é um luxo.
Mas não podemos viver como um lázaro".
E a circulação do dinheiro interessa a todos.
Nunca fingi ser o que não era e não me rebaixei à "escravidão humana" da vida que foge sem a notarmos.
Gostei do post (aprendi algumas expressões que não temos no português deste lado)
Uma boa semana.

Lourdinha disse...

Muito lúcido o seu texto, Val!
Tem muito de mim...
Estou "de acordo.com"...
Parabéns pelo blog.

curtasegrossas disse...

Ameeeeiiii...disse tudo amiga...a do carro no orkut foi a melhor...kkkk. Na verdade esse lance de seguir padrão é muito brega. A lógica de quem segue "a manada" é muito simplória, paupérrima...mas é uma lógica. É aquela história, quando se está vazio de si, é preciso estar cheio dos outros...e neste caso, os outros são os padrões.
Já quem não está nem ai pra isso é privilegiado, isso sim! Bjkas!!!!

cacholacultural disse...

Nêga, amei o seu texto.. um autoretrato, não sei mas de um grupo de mulheres que vivem a vida pela beleza de viver e de estar atuante no mundo, que vivem pelo ser, não pelo ter.
Amei o texto!