20/11/09

*opinião - O Amor de Si


EGO - a difícil tarefa de amar outra pessoa passa pela negação do amor próprio, ou de parte dele, para só então haver a doação afetiva do entregar-se | imagem: Picasso no blog Transformar-se

por David Hume*

[O egoísmo psicológico] diz-nos que toda a benevolência é simples hipocrisia, que a amizade é uma intrujice, que o espírito público é uma farsa, que a fidelidade é uma armadilha para conquistar o crédito e a confiança, e que, embora no fundo todos nós persigamos apenas o nosso interesse privado, usamos estes disfarces encantadores para fazer os outros baixar as suas defesas e expô-los ainda mais aos nossos estratagemas e maquinações.[…]

Constatamos que os animais são capazes de ser generosos tanto para a sua própria espécie como para a nossa. Além disso, neste caso não há a menor suspeita de disfarce ou artifício. Deveremos também explicar os seus sentimentos em termos de refinadas deduções de interesse próprio? Ou, se admitirmos uma benevolência desinteressada nas espécies inferiores, por que regra de analogia podemos recusá-la à superior?

O amor entre os sexos gera uma satisfação e uma boa vontade muito distintas da gratificação de um apetite. Em todos os seres sensíveis, a ternura para com os filhos geralmente é capaz de contrabalançar por si os mais fortes motivos do amor de si e não depende de maneira alguma dessa afeição. Que interesse pode ter em vista uma mãe dedicada que perde a sua saúde ao cuidar assiduamente do seu filho doente, e que depois, libertada pela sua morte da escravatura desse cuidado, definha e morre de desgosto? […]

Além disso, se considerarmos o assunto correctamente, descobriremos que a hipótese que admite uma benevolência desinteressada, distinta do amor de si, na verdade possui uma maior simplicidade […] do que aquela que procura reduzir toda a amizade e humanidade a este último princípio. Todos reconhecem que há necessidades ou apetites corporais que precedem necessariamente toda a satisfação sensual e nos levam directamente a procurar a posse do objecto. Assim, a fome e a sede têm como fins os actos de comer e de beber, e da gratificação destes apetites primários surge um prazer que pode tornar-se objecto de outra espécie de desejo ou inclinação secundária e interessada. Da mesma maneira, há paixões mentais pelas quais somos imediatamente impelidos a procurar objectos particulares, como a fama, o poder ou a vingança, sem qualquer atenção ao interesse, e, quando conseguimos esses objectos, segue-se uma satisfação aprazível em consequência das nossas afeições saciadas. […]

Ora, onde reside a dificuldade em perceber que as coisas podem passar-se da mesma forma com a benevolência e a amizade, e que, em virtude da estrutura original do nosso temperamento, podemos desejar a felicidade ou o bem de outrem que, através dessa afeição, se torna o nosso próprio bem e é depois procurado pelos motivos combinados da benevolência e da satisfação pessoal? Quem não vê que a vingança, pela simples força da paixão, pode ser avidamente perseguida ao ponto de nos fazer ignorar conscientemente todas as considerações de conforto, interesse e segurança, e, como em alguns animais rancorosos, infundir na nossa própria alma as feridas que infligimos ao inimigo? E que filosofia maligna terá de ser aquela que não dá à humanidade e à amizade os mesmos privilégios que concede indiscutivelmente às paixões mais negras da inimizade e do ressentimento?

*David Hume - Investigação sobre os Princípios da Moral, 1751, trad. de Pedro Galvão, pp. 175-181.
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colaboração: Centro de Estudos Políticos Econômicos e Culturais (Cepec)

17/11/09

*quilombos - famílias paraibanas ganham terras


PROPRIETÁRIOS - Quilombolas recebem terras por reconhecimento de ocupação territorial desde a época da escravatura no Brasil | imagem: Incra

Na próxima sexta-feira, dia 20, o Dia da Consciência Negra no Brasil, o presidente Luiz Inácio, Lula, assina um decreto regularizando cerca de 120 hectares de terras que serão de 22 famílias quilombolas paraibanas. A comunidade de Engenho do Bonfim, no município de Areia, Brejo paraibano, será beneficiada com o reconhecimento por meio da declaração de interesse social do território que ocupam, onde seus antepassados estiveram se refugiando da escravidão.

Atualmente, outros 20 processos de regulamentação estão em andamento no Serviço de Regularização de Territórios Quilombolas da Superintendência Regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) na Paraíba.

No total, o presidente assinará 30 decretos regularizando mais de 342 mil hectares de terras e beneficiando 3.818 famílias em 14 estados brasileiros. A cerimônia de assinatura dos decretos está marcada para às 17h, na Praça Castro Alves, no Centro Histórico de Salvador (BA).

A propriedade do Engenho Bonfim, atualmente desativado, foi vendida há cerca de sete anos e se transformou em área de conflito. Os novos donos tentaram retirar os 66 moradores que estão na área há pelo menos 25 anos. Algumas famílias moram nas terras há mais de 90 anos.

Pioneiros - Estes são os primeiros decretos de áreas quilombolas que envolvem desapropriações de áreas que não são em terras públicas no País. Segundo o governo federal, a partir daí é possível dar inicio aos processos de avaliação dos imóveis. Após a indenização aos proprietários, as famílias terão acesso a todo o território e posteriormente terão o título de domínio definitivo de suas terras, que é coletivo e inalienável.

O título coletivo da terra dá a possibilidade de levar políticas públicas básicas, como as desenvolvidas pelo Bolsa Família, Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), por exemplo, a essas comunidades.

Lei - A Constituição Federal, no artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, assegura aos remanescentes das comunidades dos quilombos a propriedade definitiva das terras ocupadas, cabendo ao Estado a emissão dos títulos.

O norteamento legal dado pela Constituição foi detalhado com o Decreto 4.887, de 2003, a partir do qual o Incra ficou incumbido de realizar os procedimentos administrativos. Antes do decreto, era o Ministério da Cultura, por meio da Fundação Cultural Palmares (FCP), o órgão responsável pela aplicação das políticas voltadas aos remanescentes de quilombo.

Títulos - Segundo a coordenação geral de Regularização de Territórios Quilombolas (DFQ) e Serviços de Regularização de Territórios Quilombolas, de 2003 a 2009, foram expedidos 59 títulos regularizando 174.471 hectares em benefício de 53 territórios e 4.133 famílias quilombolas.

Atualmente, existem 851 processos em praticamente todas as superintendências do Incra. Até hoje, já foram publicados 90 editais de Relatórios Técnicos de Identificação e Delimitação (RTID), com a identificação de 1.327.641 hectares, em benefício de 11.656 famílias.
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colaboração: Incra

13/11/09

*música - coletâneas paraibanas pelo mundo

Depois de passar por vários processos de produção e difusão de música, a Paraíba agora chegou num nível de fazer sons para exportação. Duas coletâneas foram produzidas e lançadas recentemente no Estado e uma delas, o CD Brazil More than Samba, já foi espalhado pelo mundo. Já a coletânea PB Pop mostra outros trabalhos gravados no Estado.

O produtor da coletânea Brazil More than Samba, Arthur Pessoa, reuniu 20 artistas paraibanos que fazem som nas mais diversas vertentes. O material chegou a Womex na semana passada. O evento tem tudo relacionado à música que circula no mundo, com grande mostruário de sons, além da parte capacitatória e de negociação de praxe em toda feira. E a Paraíba teve o seu espaço garantido por causa dessa coletânea cheia de estilo.

A outra coletânea ainda nem foi divulgada no blog do PB Pop, mas sabemos que ela foi formatada e que já está à venda no carrinho do projeto. Onde encontrar um carrinho que toca som paraibano? Em qualquer evento cultural ou onde ele for convidado. O bom desse carrinho é isso, a locomoção. Isso permite que muito mais pessoas tenham acesso a música produzida aqui, já que o rádio só toca jabá.

Ah, se todo carrinho de som de rua virasse um PB Pop... Íamos ter menos poluição sonora e mais ouvintes do que é produzido no nosso Estado. Se não conhece nenhum som paraibano, acesse nossa coluna à direita, embaixo, na sessão 'música', pra sacar alguns dos nossos trabalhos mais profissionais.

09/11/09



Por Ciro Campos*

A nova usina de etanol da Amazônia não é boa para Roraima nem para o Brasil, e pode comprometer a conquista do selo verde que o etanol brasileiro precisa. A nova usina não ajudaria o Brasil porque tem tudo que o mercado internacional não quer: é uma nova usina, fica na Amazônia, vai gerar desflorestamento e disseminar o impacto da cana em uma das maiores bacias hidrográficas da Amazônia.

É uma nova usina: a nova usina ainda não existe e nem obteve autorização para começar as obras, ao contrário do que foi informado aos ministros Minc e Stephanes em agosto do ano passado. Os canaviais para a produção da usina ainda não foram plantados, e os plantios que existem ainda se destinam apenas à produção de mudas.

É na Amazônia: se for aprovada, a nova usina e os canaviais seriam implantados na maior savana do bioma Amazônia, que fica no estado de Roraima, na região conhecida como Lavrado. Segundo os cientistas e também o IBGE, o Lavrado faz parte do bioma Amazônia, que inclui não só florestas, mas também savanas, campinas, bambuzais, várzeas, etc.

Vai gerar desflorestamento: desflorestamento não significa apenas a derrubada de florestas, mas também a retirada de qualquer vegetação natural, seja floresta ou campo, seja na Amazônia ou em qualquer outra parte do Brasil. Se a usina for aprovada, seus canaviais seriam plantados sobre a vegetação nativa do Lavrado, considerado pelo governo federal como área prioritária para conservação da biodiversidade.

Vai disseminar a cana em nova uma bacia hidrográfica: a nova usina seria implantada às margens do rio Tacutu, formador do rio Branco, principal afluente do rio Negro. A bacia do rio Negro é uma das maiores, mais ricas e mais conservadas da Amazônia. A nova usina, portanto, seria instalada nas cabeceiras da bacia do rio Negro, elevando em muitas vezes o volume de insumos tóxicos aplicados nesta parte da Amazônia, e na vizinhança de terras indígenas. A densa rede de rios localizada nos arredores na nova usina tem pouca água no período seco, que coincide com o período de aplicação dos bilhões de litros de vinhoto e agrotóxicos, potencializando o impacto de uma possível contaminação.

Com essas características, essa nova usina coloca em risco o esforço do governo federal, empenhado em garantir ao mercado internacional que o etanol brasileiro não ameaça a Amazônia, o Pantanal, e não compromete as águas, a biodiversidade e a qualidade de vida dos povos. O custo-benefício se revela inviável, pois ela aumentaria em apenas um por cento a área plantada com cana, mas colocaria em risco o valor de todo o etanol que o país produz. O necessário esforço para reduzir as emissões de carbono não pode resultar em novos problemas ambientais, e não deve justificar a expansão do etanol sobre as savanas amazônicas. As riquezas naturais dessa região, assim como o petróleo do pré-sal, são ativos estratégicos que pertencem ao povo brasileiro e que, portanto, precisam servir ao conjunto da nação, e não apenas a este ou aquele estado da federação.

Existem outros meios para o governo federal ajudar o povo de Roraima a viver com dignidade. Fortalecer a produção rural que já existe e investir em indústrias de beneficiamento aumenta a renda no interior, gera empregos nas cidades e fixa a família na sua terra, para que ela não seja vendida ou arrendada em favor da nova usina. Aproveitar o cenário favorável ao comércio internacional e a vocação natural para o turismo também pode gerar divisas. A copa de 2014 será uma boa oportunidade para firmar o estado como potência sócio-ambiental e abrir as portas para o turismo internacional. A produção de biodiesel a partir do inajá, palmeira nativa que é praga na região, pode ser interessante. O Lavrado de Roraima também é campeão amazônico em potencial de geração de energia a partir do sol e dos ventos, potencial que pode ser aproveitado. Além disso, ainda podemos receber a compensação ambiental pela água, o carbono e a biodiversidade, compensação que não é esmola, mas justo pagamento para quem protege os tesouros da nação.

As iniciativas do governo federal para desenvolver Roraima, como a Zona de Processamento de Exportação, a Área de Livre Comércio, a ligação Brasil-Guiana e a regularização das terras, devem ajudar na criação de um modelo de desenvolvimento realmente novo, com democracia econômica e fundiária, aonde a terra cumpra o seu papel de melhorar a vida do povo e esse povo cumpra o seu papel de contribuir para a grandeza do país. Não é cobrindo a paisagem natural de savanas amazônicas com cana e soja que o estado estará dando sua melhor contribuição ao país. O principal papel de Roraima para a grandeza e o futuro do país é proteger e usar com sabedoria as riquezas naturais que podem fazer do Brasil a potência do século vinte e um. Essa é a maior contribuição que, com muito orgulho, Roraima pode dar ao Brasil.

Para votar nesse manifesto basta acessar a Petição Online.

*Coletivo Ambiental do Lavrado – Roraima. ciro.roraima@yahoo.com.br. (95)9902-9067.

07/11/09

*opinião - Democracia e Utopia


DEBOCHADO - conceito de democracia, quando entendido por habitantes de países pobres, cai na ridicularização | imagem: Café Margoso

Por Nagib Anderaos Neto*

Para ser livre, o ser humano precisa exercer o livre arbítrio, pensar com liberdade, desenvolver sua inteligência, da mesma forma que para ser ético necessita desenvolver a sua moral, os seus sentimentos de humanidade e fraternidade, senão tudo é mera representação, mistificação.

Quem pensa não se deixa levar ingenuamente por qualquer predicador. Talvez seja por isso que as escolas não ensinem a pensar, senão repetir coisas, decorar fórmulas e tabelas, treinando a memória, mas fracassando a inteligência em suas principais funções como as de entender, julgar e pensar, e vamo-nos aproximando de certos animais como o papagaio que repete e o mico que imita, embora sejamos de outra natureza potencialmente falando -, pois animal algum cometeria as crueldades que o ser humano comete.

A democracia seguirá sendo uma utopia até que as mentes humanas despertem deste sono milenar que as submerge no pesadelo dos preconceitos, do materialismo, das guerras e da ignorância.

Ninguém poderá fazer pelo ser humano o que somente a ele incumbe nem livrá-lo de seus erros e de suas culpas, nem pensar por ele, pois tal hipoteca equivale à escravidão, e não há maior submissão do que a mental.

Um antigo general disse em tempos remotos que o preço da liberdade seria a eterna vigilância. Possivelmente tenha adaptado as palavras ouvidas ao acaso aos seus insanos sonhos de poder. Uma interpretação diferenciada poderia nos levar a concluir que para ser livre deveremos pensar e estar constantemente a vigiar os pensamentos que em nossas ou em outras mentes possam estar atentando contra o que de mais sagrado temos: a vida com suas amplas possibilidades.

Já se disse que os homens são livres, mas não o sabem, quer dizer, nascem livres e vão perdendo aquela liberdade que lhes fazia sentir imortais, plenos, verdadeiros super-homens naquele formidável universo infantil. Este seria o tão bem-guardado segredo dos tiranos, dos déspotas, o fato de saber que os homens são, em princípio, livres, mas não o sabem.

A liberdade, como tudo o que recebemos ao chegar neste mundo, é um dom que, se não utilizado, pode desvanecer-se, da mesma forma que a inteligência e a sensibilidade humanas.

É comum ouvir-se dizer que o ser humano usa um quase nada de sua capacidade mental; que uma mente preparada poderia realizar verdadeiros prodígios. Por que isso acontece? Por que a mente humana é subutilizada? Quais as causas desta deficiência? O que fazer para tornar a própria mente mais eficiente?

Essa falta de liberdade é como um cárcere mental cujos barrotes são o temor de pensar por própria conta, os preconceitos, a ignorância sobre si mesmo e sobre as Leis que regem o Universo.

Todos querem a liberdade, todos a trazem dentro de si como algo que não se realiza. Todos, no fundo, sabem que o ser humano não deve curvar-se perante poderes quaisquer.

Se o homem, como diziam os gregos, é a medida de todas as coisas, por que o ser humano vive tão esquecido de si mesmo? Por que tão ausente? Por que tão entretido com o que não é essencial por ser passageiro e efêmero?

A verdadeira liberdade é a de pensar. É assim como o ser humano, o espírito humano, respira, pensando com liberdade, que é o mesmo que criar, que é o mesmo que ter um domínio sobre os pensamentos que habitam a própria mente ou que perambulam por aí de mente em mente fazendo os estragos que todos sabemos quais são.

Ser livre é usar com liberdade a inteligência, todas as suas faculdades, e não somente a memória e a imaginação como nos têm pretendido impor aqueles que nos querem manter atados às rédeas da submissão e da imposição.

Os tiranos, os ditadores, os inimigos da liberdade não querem que o ser humano pense porque tal grito de liberdade, tal oposição às imposições, é a ameaça ao onímodo poder que as ânsias de domínio desenham em suas mentes doentias.

Pensar, observar, raciocinar, refletir, combinar e julgar são algumas faculdades da inteligência que não têm sido muito exigidas ou desenvolvidas pelo ser humano que pode, num grito de liberdade, deixar de ser joguete ou escravo de pensamentos alheios que nada têm a ver com a felicidade almejada pelos que sonham com a liberdade, fundamento de uma verdadeira democracia.

*Nagib é engenheiro Civil e escritor com um livro publicado e centenas de artigos sobre literatura, logosofia, filosofia e desenvolvimento sustentável.
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colaboração: Centro de Estudos Políticos Econômicos e Culturais (Cepec)

05/11/09

* música - Zabé da Loca na FEIRA MÚSICA BRASIL 2009


ÍMPAR - Zabé foi a única artista da Paraíba a ser selecionada para tocar na Feira, evento de grande porte, do Recife, que selecionou um número altíssimo de pernambucanos | imagem: Val da Costa

por Valdívia Costa

Ponto de encontro do mercado da música atual, a Feira Música Brasil 2009, evento que será realizado em Recife (PE) no final do ano, terá a presença marcante da pifeira paraibana Zabé da Loca. Não se iludam, essa senhora de 85 anos de idade ainda tem muito o que mostrar e a força da sua arte desbancou todos os trabalhos contemporâneos musicais da Paraíba. Dentre os 800 trabalhos inscritos na Feira, apenas 24 artistas (33%) foram selecionados e só Zabé representa o Estado.

O resultado da participação nusical foi divulgado na última quinta-feira, dia 29, pelo Ministério da Cultura (MinC), por meio da Fundação Nacional de Artes. A lista de bandas e músicos selecionados para se apresentarem no evento foi publicada no Diário Oficial da União (Seção 1, páginas 19 e 20). Além de um cachê de R$ 4 mil, os selecionados receberão passagem, estadia e estarão em contato com artistas de renome. Confira a lista completa dos artistas selecionados.

Muito mais anos de vida para nossa guerreira do pife e da loca nos Cariris do assentamento Santa Catarina, em Monteiro. O resultado foi merecido para ela, mas vale ressaltar o descuido do MinC nessa seleção com a multidão participante. Para que fazer tantas inscrições sem a intenção de utilizar, ao menos, uns 40% dos trabalhos avaliados? Para gerar falsas expectativas nos concorrentes? Sem contar que o processo não contemplou trabalhos diversos em todos os Estados brasileiros, tornando o processo restrito ao casting musical nordestino que vem se destacando atualmente.

Tirando as desconfianças de arranjados culturais de lado e analisando cada trabalho selecionado, o processo poderia ser mais contemplativo de ritmos variados de outros Estados. Nessa perspectiva de localidade (e não de qualidade), Pernambuco, por exemplo, que conseguiu aprovar seis trabalhos renomadíssimos, a Orquestra Contemporânea de Olinda, DJ Dolores, Josildo Sá, A Trombonada, Aurinha do Coco e Mundo Livre S/A, choveu no molhado com tanta gente do Estado onde o evento é realizado.

Nesse caso, o público não terá tanto prejuízo, afinal são trabalhos profissionais. Mas fica valendo o adendo para que o projeto abranja outras localidades além do próprio território, já que é de ambito nacional e acolhe tantas inscrições. Se não, pouco essa cena musical independente aqui no Nordeste vai se reoxigenar das características sonoras pernambucanas. Eu gosto do som latinobregapoprockregional, mas temos mais diversidades do que isso na música popular brasileira.

04/11/09

*crônica - O mosquito da dengue e o cavalo marinho



INDIFERENTES imagem: mosquito Plenarinho, cavalo Lua. montagem: Val da Costa

Vou mostrar uma série de escritos que tenho guardados... assim preenchemos o tempo com coisas atemporais, poéticas, reflexivas... chega de tanta opinião. Literatura, né?.


O mosquito da dengue e o cavalo marinho
Val da Costa

Eram seres de ambientes distintos, mas com o objetivo comum de aparecer. Por isso, não cabia a eles serem fraternos, unidos ou solidários. A vida traz a urgência do tempo e faz com que seres vivos como o mosquito da dengue e o cavalo marinho confundam valores com defeitos. Daí a questão da depreciação dos iguais, de perseguição política, das picuinhas pessoais se atrelando ao campo profissional. Tudo isso acontecendo entre o céu e o mar.

Um dia, o mosquito da dengue chegou furioso porque descobriu que sua espécie não tinha quase nenhuma representação política em seu habitat. Tentando ele próprio ser este ser megaloblástico, o mosquito avistou o cavalo marinho, que vivia boiando, porque é um bicho aquático mesmo. O inseto, como um animal do ar, não se dá muito com a água, a não ser para nascer, crescer a aterrorizar uma população. O mosquito não sabia o que fazer. Resolveu desabafar com aquele ser aparentemente tranqüilo.

Unindo a situação de aflição do mosquito com a ganância disfarçada do cavalo, os dois confabularam um plano: o domínio de um outro mundo. Como o ar era um ambiente vazio demais e pouco utilizado como front de guerra e o mar já era um local propício ao marasmo, mesmo com uma população plural e barulhenta, os dois novos comparsas resolveram fazer terrorismo em outra praia.

Descobriram, assim, numa busca incessante, que leva qualquer alma ao cúmulo do ridículo, o mundo perfeito para se dominar. Quando encontraram no mundo perdido da fantasia, o denominaram de bojos de sanitatius. Como o nome era muito extenso, prolixo, eles abreviaram-no para rádio, o reino do descaramento.

A fuga parece algo estranho, às vezes. Chegamos a pensar que as coisas estão realmente acontecendo, sendo que tudo não passa de uma “viagem”, como diriam os mais descolados. Não foi diferente para o mosquito da dengue e o cavalo marinho. Mesmo sabendo de suas próprias habilidades e limitações, os dois resolveram atacar de qualquer maneira os inimigos, fugindo a suas realidades.

Pelo Rádio, os dois destroçaram cidades inteiras. O mosquito - com seu ferrão sutil, mas poderoso, capaz de derrubar qualquer sujeito na cama por uma semana – atacou de “entendedor das pobrezas dos insetos”. O cavalo marinho – potente e majestosa figura marinha, cuja a funcionalidade só o mar entende – atirava com boa pontaria em prol das figuras mais anônimas dos anônimos do mundo. Tão trivial e bobo foi o trabalho dos dois que em pouco tempo ninguém acreditava mais neles.

Voltaram para seus mundinhos insignificantes e foram lamentar as mágoas de uma péssima sociedade com os seus ente antipáticos. Persistentes do jeito que são, os dois não abandonaram a idéia do rádio. Pelo contrário, disseram para os outros (e para eles mesmos) que o mundo no qual eles viveram continuaria a existir. E assim é até hoje.

Fevereiro de 2007

03/11/09

*opinião - Ler e aprender


LIQUIDIFICADOR - A experiência de viver na Era da Informação nos traz inúmeras vantagens como viajar non stop pelo mundo do conhecimento. Porém, torna-se impossível lembrar-se de tudo o que vemos durante essa viagem | imagem: Nagüeva

Por Sérgio Cyrino da Costa*

Há mais de 2 mil anos, toda a cultura que um cidadão da Grécia Clássica acumulava durante sua vida inteira caberia num jornal de domingo da era atual.

A sede de saber é um atributo humano. O apetite pelo conhecimento e informação se origina na curiosidade da criança sobre sua origem; vem crescendo geometricamente desde a infância da humanidade. O saber transmitido oralmente por um filósofo ou sábio aos seus discípulos era muito difícil de ser guardado, catalogado. Os papiros, as pedras, o trabalho persistente dos monges copistas, nos transmitem uma versão distante da história daqueles tempos remotos.

A obsessão pelo conhecimento estimula a necessidade de mudança que existe em cada um de nós, para nos mantermos vivos como indivíduos e como espécie, descobrindo e transmitindo antes de morrermos. Estagnação é sinônimo de morte, de marasmo, de apatia.

Da tribo selvagem às universidades, pontifica a figura idealizada do sábio, o dono do saber. "Só sei que nada sei", dizia Sócrates. Isto quer dizer que a busca pelo saber não termina nunca. A maior sabedoria consistia em reconhecer que o saber era uma estrada da qual não se via o fim. A boa teoria é aquela que pode ser contestada, levando a novas respostas por meio da pesquisa e discussão. Os debates públicos sempre fizeram muito sucesso com os contendores procurando surpreender um ao outro por meio de informações inéditas.

Babel de ofertas - Há alguns anos, o saber, que estava confinado a poucos afortunados frequentadores de bibliotecas e livrarias, ganhou as ruas por algumas publicações traduzidas, em bancas de jornal. Um pequeno número de revistas deu lugar a uma verdadeira explosão de imagens, termos científicos elaborados, curiosidades, literatura, desde física quântica até criação de cachorros e lutas marciais.

Se um viajante do tempo entrasse hoje na banca da esquina, não iria acreditar que aquela barraca onde comprava suas revistas e fascículos se transformou numa babel de ofertas. Os fascículos semanais tinham um efeito curioso sobre o psiquismo do leitor: fazer que ele se imaginasse um bibliófilo, um imortal, cercado de volumes em que beberia na cultura completa do mundo. Ressalte-se aqui a palavra "completa". O formato atual traz justamente a ideia de um saber infinito, oceânico.

Os antigos programas de perguntas da TV, como O céu é o limite e Absolutamente certo, prometiam fortunas aos candidatos que se especializavam em determinados campos do conhecimento, devorando todo o material disponível sobre o assunto escolhido. Eles despertavam a admiração da plateia pela quantidade de informações que conseguiam assimilar e reter.

Os assuntos variavam desde a vida das formigas e figuras ilustres até a Bíblia. Quem se propõe a estes desafios já traz previamente dentro de si o hábito ininterrupto da busca por informações novas. Filmes como o atual sucesso Quem quer ser um milionário?, dirigido por Danny Boyle e distribuido por Fox Searchlight Pictures e por Europa Filmes, são o avesso da compulsão pela informação. Aqui, o que importa são a inteligência e a experiência de vida a serviço do poder mágico da sorte, que atuam em favor do personagem principal. Jamal está mais para adivinho, à maneira do Édipo grego que decifrou as perguntas da Esfinge para não ser devorado. O público vibra porque se identifica com a esperteza e coragem do Jamal anônimo, não com seu saber obsessivamente acumulado. Triunfo retumbante ou sarjeta.

A obsessão pelo conhecimento estimula a necessidade de mudança que existe em cada um de nós. O que moveria a compulsão à informação? Como já foi dito neste artigo, o homem já nasce curioso. A criança explora avidamente seu mundo imediato e vai ampliando sua capacidade de observação, à medida que se desenvolve. Enfia o dedo nas tomadas, leva os objetos à boca, move os olhos em todas as direções, acompanhando as luzes e ruídos do ambiente, extasiada com as primeiras informações que vão se acumulando dentro de sua mente. Um dos maiores discípulos de Freud, o brilhante húngaro Sándor Ferenczi, escreveu um pequeno trabalho em 1923 intitulado "O sonho do neném sábio".

Nele, Ferenczi diz que os pacientes adultos frequentemente relatam sonhos nos quais crianças pequenas, e até bebês, são capazes de ensinar aos adultos com extrema erudição e locução perfeitas. O tema não é inédito, já que aparece em vários mitos, inclusive na história do próprio Jesus Cristo, em que ensinava aos sábios do templo. Ferenczi interpreta que estes sonhos representam o desejo da criança de ultrapassar os adultos em sabedoria e ciência, invertendo, assim, a posição de inferioridade. Um adulto que se sentiu humilhado na infância ou atualmente, também poderia desejar vingar-se dos que tivessem criticado suas palavras ou atos.

Em muitos casos a obsessão pela informação e pelo conhecimento representa um exercício de preparação para uma contenda verbal. Traços obsessivos são absolutamente necessários à nossa organização psíquica normal. Um dos grandes méritos de Sigmund Freud foi ter percebido que as patologias mentais fazem parte dos componentes no psiquismo normal de todos os indivíduos, em doses pequenas. Tudo que aprendemos passa a ser catalogado em compartimentos de nossa mente, como gavetas de um arquivo.

Algumas pessoas possuem o impulso irresistível de encher suas gavetas mentais até entupi-las de registros novos que não conseguem digerir. O colecionismo é a obsessão dos normais.

Os fascículos semanais tinham um efeito sobre o psiquismo: fazer que ele se imaginasse um imortal. Afinal, o que quer o compulsivo por informação? Em primeiro lugar, aprender tudo, alimentar- se de conhecimento, saciar sua sede de saber. Em segundo, que este saber responda a todas as perguntas, como uma coleção de figurinhas que se completa, adquirindo os números faltantes. O problema é que, na realidade, sempre falta algo, porque o saber não é estático. Os compulsivos não se conformam com isso. Com o aumento gigantesco do acesso à informação, boa parte das pessoas liberou seu lado compulsivo adormecido.

Triunfo do novo homem - A partir dos anos 1980, com a necessidade de competir num mercado superlotado, as novas gerações desenvolveram o hábito ou a capacidade de focar sua atenção em vários objetos simultaneamente, com prejuízo do rendimento shutterstock sobre cada um deles. A compulsão à informação colocou-se a serviço da corrida profissional. É o triunfo do novo homem, dos jovens sobre os velhos, da geração do computador sobre os ratos de biblioteca. Contudo, todo excesso tem seus efeitos colaterais. O limite extrapolado pode fugir ao alcance da organização mental. "É ilegal, imoral e engorda", já diziam Roberto e Erasmo Carlos. Os consultórios de profissionais de saúde mental recebem um número crescente de pacientes que, durante anos a fio, se submetem a um regime espartano de estudos. Vivem trancados em casa por exigência dos concursos públicos. É a promessa da garantia da emancipação, da liberdade, em troca da perda da própria liberdade. O resultado, muitas vezes, é o colapso mental pela obsessão de quebrar uma corrente de reprovações ao longo de anos. No caso, a compulsão pela informação obedece ao jugo de um severo interrogador.

Cada reprovação é um martírio que obedece exatamente à definição da compulsão: voltar ao começo, estudar tudo de novo, suportar a espera, pensar continuamente no assunto, dando voltas sobre o mesmo tema e culpando-se dia e noite. A culpa, no caso a de não saber, é um elemento presente no sistema compulsivo. Reparar uma falta. Vale lembrar o mito de Sísifo, paradigma da compulsão, condenado por Zeus a rolar uma grande pedra de mármore montanha acima. Castigado por suas artimanhas, toda vez que estava prestes a chegar ao topo, a pedra despencava, obrigando-o a um árduo recomeço. A enciclopédia virtual mais utilizada atualmente pelos compulsivos à informação, a Wikipédia, é feita com contribuições dos próprios internautas. Por este motivo, precisa ser revista sempre, obsessivamente, devido à maior possibilidade de erros em função da pletora ininterrupta de acréscimos.

A internet, esta grande feiticeira, é o centro das discussões sobre a escravização do homem à informação. O medo de sair de casa pode servir de pretexto para substituir a sexualidade, sublimando os desejos de corpos do mundo real, externo, pela regressão viciante com a máquina. Não há fantasia audiovisual que a web não satisfaça. Cada link remete a centenas de milhares de ilhas de saber, enlouquecendo o pesquisador em busca da certeza definitiva, que nunca será encontrada. Ele pode imaginar o que quiser, manter contato com quem quiser, viajar para lugares nunca antes imaginados ou visitados, inclusive outros planetas, desde que aceite as regras da distância. Ou então realizar o desejo de encontrar o par ideal. "Você pode começar a namorar já", diz a propaganda dirigida aos solitários carentes.

Seria exagero compararmos alguém que, logo ao levantar da cama, já começa a alimentar-se de cores, sons e movimento no seu laptop de cabeceira? O usuário entra em contato simbiótico com o seio virtual, do mesmo modo que o bebê solicita sem limites de tempo a presença nutridora da mãe. Tal prática não é rara, e vai se tornando doença na classificação das adições às drogas, junto com as dependências químicas: ingestão de quantidades cada vez maiores, não se contentar com o que já tem, armazenando muito mais do que o necessário, substituição de uma vida útil pelo investimento de energia em tempo inútil, atitude passiva em relação às demandas responsáveis do mundo externo, abandono das atividades sociais.

O mergulho na tela do computador poderia representar uma volta ao útero gratificante da mãe, de um feto em usufruto contínuo do espaço-tempo, sem os limites de horário e compromisso que a vida adulta impõe. As pessoas relatam que passam a não se dar conta da chegada da madrugada e do amanhecer à medida que se embrenham, sem solução de continuidade para suas vidas. O corpo físico dá lugar ao corpo virtual.

Eco de consciência - A Como podemos combater nossas tendências à compulsão pela informação? O isolamento é sempre um aliado do nosso narcisismo. Faz que nos voltemos para nossas lembranças, nossas vivências passadas, nossos erros e recriminações. As informações devem ser compartilhadas. É preciso tolerar o convívio saudável dos comentários que nos acrescentem. O pensamento isolado raramente frutifica. As grandes bibliotecas são fascinantes em sua penumbra misteriosa, no silêncio quebrado pelo folhear das grandes obras. A intimidade com o computador o transforma em um amigo que responde a todas as nossas questões, mas que não nos questiona. Obedece mecanicamente às nossas ordens, como um eco de nossa consciência. Muitas respostas têm de brotar de nossa reflexão, em vez de virem prontas. Não somos imitadores nem papagaios dos grandes cientistas ou dos grandes filósofos.

Em A arte de escrever, o filósofo Arthur Schopenhauer (1788-1860) faz uma crítica aos que buscam a informação de forma compulsiva. "Em geral, estudantes e estudiosos de todos os tipos e de qualquer idade têm em mira apenas a informação, não a instrução. Sua honra é baseada no fato de terem informações sobre tudo, sobre todas as pedras, ou plantas, ou batalhas, ou experiências, sobre o resumo e o conjunto de todos os livros. Não ocorre a eles que a informação é um mero meio para a instrução, tendo pouco ou nenhum valor por si mesma. Diante da imponência de tais sabichões, às vezes digo para mim mesmo: Ah, essa pessoa deve ter pensado muito pouco para poder ter lido tanto!". Schopenhauer estava certo.

Filosofia e Psi - Arthur Schopenhauer foi um filósofo alemão que refletia sobre a vontade humana e a representação. Para ele, a vontade não é racional, ou seja, está fora do nosso controle. Portanto, sofreríamos por não conseguirmos controlá-la. Nosso prazer, então, viria apenas da necessidade de superar, momentaneamente, esta dor. É a partir deste pensamento que Schopenhauer critica as pessoas que leem, de modo a se satisfazerem sem, de fato, gerir da leitura alguma informação

* Sergio Cyrino da Costa é médico psiquiatra e psicanalista membro da federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi) e da associação Psicanalítica do estado do Rio de Janeiro (Aperj-RiO4).
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colaboração: Centro de Estudos Políticos Econômicos e Culturais (Cepec) - organização não governamental que desenvolve programas e ações destinadas à inclusão social para informação e formação. O foco é desenvolver a consciência crítica das pessoas, para a construção de uma sociedade sem oprimidos e sem opressores.

30/10/09

*letra - Livros, de Caetano Veloso


SOFISTICADO - Caetano Veloso esbanja sabedoria e domínio da língua portuquesa e de seus usos nessa letra | vídeo: Youtube

Composição: Caetano Veloso

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um.

Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.

28/10/09

*mercado - Queda na Cultura


CAETANO VELOSO - um dos grandes nomes da música brasileira também sentiu a minguada que o mercado cultural sofreu, principalmente com o acesso mais fácil e gratuito à música pela internet | imagem: Roberson Alexandre da ABCDesign

Muitos comentam sobre a atual desordem que o mercado cultural vem sofrendo na última década. Dos produtores de grandes artistas aos agentes de bandas independentes, só ouvimos reclamações e dados declinantes. Para esclarecer mais um pouco sobre esse assunto, de maneira generalizada em todas as artes, deixo uma opinião bem interessante dos colega sjornalistas Marta Barcellos e Tom Cardoso. O texto foi feito para o Valor Econômico, do RJ e de SP.

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Por detrás das estrelas

A cantora Ivete Sangalo pretende parar de trabalhar por alguns meses depois do nascimento de seu bebê, previsto para outubro. A legião de fãs acostumados com a sua onipresença no cenário musical, no entanto, não ficará órfã. Entrará em cena, em seu lugar, a Ivete Stellar, personagem de um longa-metragem animado, previsto para estrear justamente durante a “licença-maternidade” da cantora. “Também vamos produzir alguns clipes nessa fase. Só precisamos da voz dela, que já está gravada”, explica Jesus Sangalo, irmão e empresário de Ivete.

Jesus administra um império de entretenimento que tem como carro-chefe a imagem da cantora. Ele abrange desde a empresa de animação gráfica que produz o longa “Ivete Stellar e a Pedra da Luz” até braços dedicados a eventos corporativos e marketing promocional. Se em outros tempos um artista do porte de Ivete podia se dar ao luxo de ficar meses apenas planejando e gravando o próximo disco anual, hoje a rotina da maioria é bem diferente - inclui uma maratona de shows e participações em projetos multimídia variados, sempre com forte divulgação na internet.

Diante das transformações da indústria cultural, o empresário ou agente também precisou mudar de papel: em vez da figura de um todo-poderoso investidor que apostava em projetos de marketing que dependiam das gravadoras, ele agora tem que estar sintonizado com as novas tendências. E quais são elas? Ninguém sabe ao certo, nem Jesus Sangalo, que faz questão de ressaltar que a sua ingerência na carreira da irmã se dá apenas na parte comercial - ele não dá palpite em suas escolhas artísticas. “Mas estou atento às oportunidades que elas podem gerar”, afirma. Jesus orgulha-se de ter feito parcerias em todo o país que o permitem saber o que toca nas rádios do Oiapoque ao Chui. “Ao contrário do que todos pensam, a música está cada vez mais regionalizada. Mas não sei se isso é tendência. Fico antenado para saber o que está funcionando e o que não está.”

A arte de dançar conforme a música, sem preconceitos, vale também para outras áreas da cultura. Os agentes que faziam a intermediação entre os artistas e a indústria cultural, fortalecida pela concentração de capital nos anos 70, já não conseguem trilhar os caminhos do passado. “A produção cultural está se tornando difusa e descentralizada, e os modelos de divulgação e distribuição não são mais tão claros”, diz Silvia Borelli, professora da pós-graduação em ciências sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

A insegurança em relação ao futuro e a incerteza em relação aos novos caminhos, diz a antropóloga, fazem parte do momento que vivemos, resumido no conceito de “modernidade líquida” criado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman. “O modelo mais difuso vai na contramão da especialização, por isso a versatilidade passou a ser a grande demanda profissional nesses mediadores.”

O enfraquecimento da indústria fonográfica tornou-se o aspecto mais visível dessas transformações, com implicação direta nos rendimentos dos artistas, especialmente dos compositores. “Deixamos de ter uma receita importante de direito autoral”, afirma Paula Lavigne, empresária de Caetano Veloso, com quem foi casada.

Ela questiona a máxima conformista, que passou a ser repetida no mundo musical, de que nos novos tempos os cantores têm que aprender a viver apenas de suas apresentações. “E quem é só compositor? O Caetano está bem e adora fazer shows, mas já tem 67 anos. Se ele quiser ficar um tempo em casa, apenas compondo, como já fez antes, não vai conseguir manter o padrão de vida.” Segundo ela, 90% da receita do cantor vem hoje de shows.

(...) CONTINUANDO...
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Gostei demais e me identifiquei de verdade com um texto sobre empreendedorismo que essa autora escreveu no seu blog. "... Acredito que, se houvesse mais jornalistas produzindo conteúdo fora das redações, esse mercado se consolidaria, se tornaria mais profissional. Claramente existe uma demanda crescente, tanto dos veículos como das empresas". Com essa fala, bati o martelo: penso a mesma coisa. LEIAM MAIS SOBRE COMUNICAÇÃO E EMPREENDEDORISMO.

já rolou