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8 de março de 2015

UM BULGARI DO MEU JARDIM

Professora Nicinha, de Jardim do Seridó, gosta de ouvir os ex-alunos mandando recados para ela. 
Fotos e texto: Valdívia Costa


Bulgari é a flor do Jardim que mais perfuma a cidade. São pequenos e cacheados floquinhos branquinhos. São jasmins, na verdade.

Flores, das que cheiram, das que embelezam e das que pintam uma cena. Mas um bulgari está quietinho, quase sem pétalas, num cantinho.

Já foi cheinho de viço, de vitalidade. Mas agora precisa apenas dos olhares. Não mais vai crescer, nem exalar com tanta precisão seu perfume. Mas vive. E come sentimentos à vontade.

De manhã, a florzinha recebe atenção, estrume, água... De noite, ela fita o luar de uma das janelas de toalhas decoradas. Goteja a madrugada, ela acorda, meio aflita com lembranças...

As folhinhas de sua haste vão murchando. Entre ursinhos de pelúcia, o bulgari do meu Jardim mora. “Eu gosto dos ursinhos, são como eram meus gatinhos...”, recorda a pequena flor.

Uma coisa triste aconteceu na vida deste jasmim: ela teve que deixar seus felinos para trás. Mudaram a florzinha de jarro e assim ela saiu do telhado para um outro quintal.

Um dia tão horrendo que até hoje ela lembra entre soluços. “Como pode retirar da pessoa aquilo tudo que ela tem?”, questiona. Mudas pequenas, não teve. Viveu sozinha, entre gatos, amores seus.

“Onde será que estão, meus bichanos?”, pergunta sempre. Como um consolo, começaram a chegar os bichinhos de pelúcia. Ela sabe que não são vivos, mas é saudosa e apegada.

Um raio imaginário atingiu os olhos desse jasmim. E foi um breu. Num fechar de cortinas e num escurecer de repente cegaram Le fleur do meu jardim.

Agora depende de outras flores para saber do dia. Aquele tão lindo e pulsante decorrer de atividades, ensolarados seres vivos e polifônico viver agora são pura sinergia.

As tardes são douradas telas... Momentos de efusão no Jardim delas. Uma luz laranja banha as pétalas, que sorriem, gracejam, tremelicam e soltam pequeninas nuvens de cheiros, “pof, pof, pof”...

É hora do som das vozes aceleradas dos locutores, das músicas “danceiras”. Dá para escutar, ainda. E por onde bulgaris ouvem novidades? Pelo renomado radinho de cabeceira.

Nicinha vai ao banheiro com a ajuda da amiga de quarto, Zulmira.
Alguns depoimentos sobre Dona Nicinha, este bulgari que foi uma professora das mais dedicadas e lembradas da minha querida Jardim do Seridó, são carinhosos. Desde que postei fotos dos idosos do Abrigo de Jardim num grupo da cidade, no Facebook, que a foto dela é a mais curtida e comentada. Mais uma mulher em forma de rosa.

Leiam:

“Ela é um amor. Ela adora os ursinhos dela e quando não morava no abrigo criava gatos. Eram os xodós dela”. Daniele Batista

“Acho que D. Nicinha é do tempo da minha primeira professora em Jardim, D. Zenobia. Fui aluna dela na 4ª série em preparação ao ginásio. Ainda parece com ela quando a via em Jardim”. Maria José

“Também foi minha professora. Com a cartilha do ABC e a tabuada e o caderno de caligrafia. Visitei-a no abrigo no final do ano passado e ela se lembrou de mim”. Eloildo Cirne

 “NICINHA , HISTÓRIA VIVA DA NOSSA EDUCAÇÃO. NOSSOS ABRAÇOS”. Antonio Macena

“D. Nicinha. Grande educadora”. Maria do Carmo Bebezinha

“Também foi minha professora. Com grande satisfação que digo: UMA LENDA. Continua simpática. Abraço!”. Chagas Azevedo

“D. Nicinha... tentávamos tirar um 100, nunca conseguimos, né Goretti DE Nen?”. Cenira Medeiros

“NUNCA, né, amiga, Cenira Medeiros?! Ela dizia que ‘100 não era para aluno’... E nos castigava... Além do que, a letra tinha que ser... não era nem linda... Era perfeita. Minha base... Nossa base e de tantos outros... QUE DEUS A ABENÇOE!” Goretti DE Nen

“Foi minha professora, aprendi a ler e fazer conta na tabuada. Me lembro como se fosse hoje: na época, ela tinha um rádio que ficava em cima da mesa dela. Quando ela ficava nervosa tacava aquele rádio no chão! Eu ia lá para cozinha, para a sua irmã tomar tabuada com a gente. Ela tinha um gato aleijado, quem se lembra?”. José Ricardo Silva dos Santos


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