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12 de março de 2010

"VOCÊ TÁ DOIDA PRA ME DAR..."


TIETAGEM - Numa conversa entre dois observadores, Totonho, um dos músicos paraibanos que mais conseguiu repercussão em seu trabalho, nacional e internacionalmente, confessou que Monteiro, sua cidade natal, tem tudo pra bombar nas artes. E eu concordo. O músico está com novo CD e várias histórias interessantes. | imagem: divulgação / Val da Costa

VALDÍVIA COSTA

O que acontece quando dois apaixonados por um lugar vão conversar? Muitas histórias memoráveis, lógico. Foi assim essa entrevista com o músico paraibano Totonho. Ele nasceu e se criou em Monteiro, no Cariri, mas mora no Rio de Janeiro. Eu não sou de lá, mas descobri suas riquezas culturais desde 2006 e reverencio a cidade. O bate-papo foi bom, rendeu surpresas: Totonho só conheceu sua conterrânea, a pifeira Zabé da Loca, no Rio.

Outra novidade é o segundo disco do inquieto músico, Sabotador de satélite, que tem uma visão do Nordeste a partir de um ônibus espacial. O primeiro CD de Totonho (2001), pela Trama, é mais terrestre. No atual, ele entrou em órbita e se inspirou para criar Jaspion do Pandeiro, A Era Espacial, O Homem Pisou na Lua, entre outras. O trampo tem uma parceria da dupla produtora indie Berna e Kassin. Como poucos, o músico mistura ritmos como xote, ciranda e carimbó com o eletrônico.

Totonho viajou na órbita terrestre para criar sonoridades como o brega Você Tá Doida pra me Dar, que vem chamando a atenção do internauta no projeto Brazil More Than Samba. Depois de faltar com uma entrevista, o auto-brado heróico "Totonho, Venha Salvar o Mundo!" serve para o blog.

DE ACORDO COM "- Sua cidade natal, Monteiro, é um destaque no Estado pela expressão da cultura e das artes. O que você acha que ela tem que as outras cidades, principalmente as caririzeiras, não têm?

TOTONHO - Monteiro possui um vínculo ancestral com a palavra. Foi criada a partir de uma fazenda dos Monteiros, os portugueses da Região dos Tras dos Montes, os criadores de cabra e bodes. Então, a palavra virou game na cidade. Mesmo os que não falam muito bem, são poetas, sabem colocar a palavra. E, como a música brasileira tem acento substancial na Palavra, é a palavra portuguesa que dita o som, quem pastora o som, que processa a sonoridade. O lugar foi se desenvolvendo em torno do seu tesouro que é a palavra. Levamos esta pequena vantagem no Cariri. Mas acho que hoje já influenciamos toda a região.

" - Sua cidade tem cerca de 30 mil habitantes e é cheia de poetas, declamadores populares, como fazia Pinto de Monteiro e como faz ainda Expedito de Mocinha. E também possui expoentes da música, como a respeitada Zabé da Loca. Você acha que essas personalidades te influenciaram no fazer artístico, na música, ou Monteiro inteira contribuiu, com sua imensa vida rural (a maior área da Paraíba) e suas belas paisagens? Ou não veio do Cariri suas inspirações provocadoras da aspiração na arte?

T - Repare Val: dizia Dostoiévski, "O interior é universal, se parecem, é onde o curioso nasce. As Capitais são iguais e cada vez mais se esforçam pra isso". Minha nocão de arte e cultura nasceu das anedotas contadas por minha mãe e meu pai. São histórias de crendices e heroísmos de caboclos simples. Isso já herdado do que falavam de Camões e coronel Ludugero, entres outros. Mas a sociedade monteirense sempre foi metida, atirada, ousada. Na poesia, eu admirava Abelardo dos Santos, Firmo Batista, Pinto, que inda ouvi cantar umas duas cantorias, e Flávio José, com quem fui basicamente criado musicalmente, asistindo aos ensaios dos Tropicais. Agora, o ar de Monteiro é impregnado de poesia. Respeita-se isso. Acho que deveria se investir mais pra consolidar a cidade como um corredor cultural do Cariri. É preciso saber escoar a produção e isso Monteiro tem feito, estamos nos quatro cantos do País com nosso jeito e astúcia...

" - Você gosta de cabras, isso é notável em algumas composições. O que você acha dessa cultura caprina que também toma Monteiro, a ponto de se ter a maior produção de leite de cabra do Brasil? Como é sua relação com a caprinocultura? Também é criador desse exótico e totalmente aproveitável animal, como seu conterrâneo caririzeiro, Ariano Suassuna?

T - Como já relatei, Monteiro descende de um povo da região de Portugal que são os maiores conhecedores desse animal no mundo, os Tras dos Montes, que curiosamente são chamados de Os Monteiros. O meu pai se chamava Chico Buchada. Minha mãe foi uma das maiores especialistas no prato, por isso tinha um bar muito frequentado por poetas e cantadores, e também a jovem guarda musical de Monteiro. Meu irmão tem uma fazenda de embriões e cria bodes de raça. Eu só faço firula, porque o tema me foi empregnado desde a infância...

" - Fale um pouco dos seus projetos musicais. Tem CD, show novo por aí? Como você tem administrado sua carreira morando no Rio de Janeiro? Tem alguma gravadora tocando e distribuindo seus fonogramas? Totonho agradou aos cariocas a ponto de não sair do Rio?

T - É, o Rio me tomou de assalto (risos). Sempre tive vontade de viver aqui. Mas me sinto em casa. Ou seja, foi daqui que tomei fôlego pra atirar as sementes da minha música para os mais de 20 paises em que já toquei. Minha gravadora, a Trama, foi vendida para a Sony. Vi que, dentro de uma grande gravadora, eu poderia ficar na geladeira. Recuperei os direitos de imagem e agora estou concluindo o terceiro CD, CANÇÕES PRA MACHO CHORAR E ROER UNHAS, com participações de Zeca Baleiro, Lenine, Chico César. São baladas densas, algumas de auto flagelo, pra fazer o homem pensar na vida e o que de fato quer com as parceiras (ou parceiros). Mas um disco, também, muito politizado, digo: onde me exponho em algumas opiniões políticas. A gravdora atual é a francesa COMETA RECORDES/SELO TOTEM. No Brasil, inda sem definições, mas com boas conversas com a carioca Dubas, do compositor Ronaldo Bastos.

" - Você ainda faz um trabalho social com crianças em situação de risco no Rio de Janeiro? Se sim, quais os maiores gargalos desse tipo de projeto? Se não, cite algum outro trabalho que você conhece e o que isso tem mudado na realidade das pessoas.

T - Olha, durante 15 anos participo de ações sociais aqui no Rio. É um trabalho apaixonante e perigoso. Minhas últimas músicas são impregnadas desses assuntos. Atualmente só colaboro com a Madame Satã FM, que eu próprio criei. Tenho tido outros assédios pra voltar à linha de frente, mas tive que dar uma chance à minha carreira, que estava ficando em segundo plano. Mas continuo dando cursos em comunidades, favelas e assessorando grupos de novos educadores.

" - Pra encerrar, como você mesmo sugeriu, só falta contar como foi o seu primeiro contato com outro grande nome da música monteirense, a Zabé da Loca. Você chegou a conhcê-la ainda quando morava em Monteiro?

T - Ouvi falar de Zabé pela primeira vez quando estava já vivendo no Rio. Foi um filme feito pelo pessoal do Paraiwa, chamado (acho que) "Casa de Morada". Fiquei impressionado. Mesmo sabendo que a sociedade nordestina é estremamente matriarcal, no caso daquela senhora com pele cabocla e olhos de holandês, a impressão iria muito mais além. Depois, coincidentemente, minha empresária, a Lu Araujo na ocasião, começou a reprersentar a Zabé, e nos conhecemos numa festa de aniversário no bairro de Santa Tereza, aqui perto de casa. Tomamos uma cana brava e carreguei aquele precioso exemplar de humano nos braços até o hotel em que estavam. Conheci o finado Beiçola, que veio a morrer no dia em que fiz meu primeiro show em Monteiro, depois de ter ido embora. Expedido de Mocinha só de nome, depois ouvi algumas coisas, e o talento me entusiasmou. Hoje sou muito mais ligado a Monteiro do que no tempo em que morava em João Pessoa. Me interesso pelas expressões e novidades. Penso gravar cenas do meu primeiro DVD, ATENÇÃO! CABRAS NA PISTA, por lá este ano. Não sei como, mas é um trabalho delicado por conta das distâncias e equipes de produção. Sem apoio estatal seria quase impossível. Mas, se observa que, impossível foi chegar onde cheguei. As coisas rolam. Me sinto um artista acanhado diante da impulsão criativa do lugar. É um dos raros exemplos em que a estrela é a cidade e não os artistas.

4 comentários:

cabra disse...

Eita Val, amei, bem disseram que tratava-se de uma guria de olhar aguçado sobre as coisas simples da vida, viver, e contar. agradecido pela integridade do texto e sutileza na forma de se colocar. bjim cabra

De acordo com disse...

Obrigada, Totonho! \0/ Eu sou preciso de mais moral dos artistas pra ser a boca deles no mundo. hehehe

Yaya disse...

mas que surpresa boa! adorei a entrevista!!!vida longa ao de acordo com!

Ravel disse...

No meio de tanta futilidade na net onde se perde muito tempo e informa-se muito pouco... vejo que ainda há um pouco de esperança ao ver um blog com conteudo como o seu, sou fã desse seu blog e você sabe disso não precisa nem pedir..rsrs... chêro pra tu...