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22 de dezembro de 2008

*Opinião - Missa do Galo (...) - Frei Betto




Natal é festa polissêmica. De certo modo, desconfortável. Para os cristãos, comemoração do nascimento de Jesus, Deus feito homem. Para a indústria e o comércio, ocasião de promissoras vendas. Para uns tantos, miniférias de fim de ano. Para o peru, dia de finados.

O desconforto resulta da obrigatoriedade de dar presentes a quem não amamos, mal conhecemos ou fingimos amizade. Transferido o presépio de Belém para o balcão das lojas, substituído Jesus por Papai Noel, a festa perde progressivamente o caráter religioso. O Menino da manjedoura, que evoca o sentido da existência, cede lugar ao velho barbudo e barrigudo, símbolo do fetiche da mercadoria.

O olhar desavisado diria que o consumismo hedonista despe-nos da religiosidade. A Missa do Galo, outrora à meia-noite de 24 de dezembro, reduz-se ao galeto das celebrações, às oito ou nove da noite, antecipando-se à madrugada na qual impera a violência urbana. O apetite da ceia e a curiosidade em abrir presentes falam mais alto que bons e velhos costumes: oração em família, cânticos litúrgicos, narrativas bíblicas, memória dos eventos paradigmáticos de Belém da Judéia.

Uma atualização dos eventos bíblicos permite-nos imaginar, a partir do contexto brasileiro, o leitor do Diário de Belém, edição de 26 de dezembro de 1, frente à seguinte notícia: "Família de sem-terra ocupou ontem a fazenda Estrela de Davi, em cujo pasto uma tal Maria, esposa do carpinteiro José, deu à luz o filho Jesus. A polícia de Herodes está no encalço dos sem-terra, que se encontram foragidos."

A abstração da linguagem, contudo, faz do pseudolirismo natalino o inverso do fato histórico. O Verbo encarnado perde contundência e cede lugar ao presépio descontextualizado, mero adorno à festa papainoélica.

(...)


* FREI BETO é assessor de movimentos sociais e escritor, autor de "A arte de semear estrelas (Rocco), entre outros livros.

>>> Se quiser ler o resto do artigo, peça, por e-mail, para ser inserido no grupo de discussão do Centro de Estudos Políticos, Econômicos e Culturais (w.cepec.org@gmail.com).

Um comentário:

Allysson Allan disse...

Se o Frei Betto colocar mais argumentos religiosos no discurso, ficará mais embasado, se seguir à risca, tá! Pelo menos 10% do que o manual do comportamento humano, vulgo Bíblia Sagrada, ele não estaria cometendo o lêdo engano de simplificar o conhecimento religioso ao conhecimento cotidiano. Palavras boas atreladas em uma boa crítica ao Mercado, levando em consideração a importância da Sociedade Civil. Uma pena que não cita o Sistema, mas sim os agentes locais, os antropóides de cada casa. A intervenção social é importantíssima nesse processo, ir diretamente ao coletivo, e não de casa em casa (haja energia disponível, não?). E voltando ao conhecimento cotidiano. Posso argumentar que, vivendo em um mundo (sistema) mercadológico, primamos por seguir os conhecimentos religiosos cristãos, até mesmo favoritar o dia da Santa Ceia para o Voluntariado (que é papel do Estado), em 1 data das 364 do ano.