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15 de junho de 2009

*opinião - "A emepebê precisa se reeditar, sempre"


START - primeiro disco que caracterizou o início da bossa nova

*por Toninho Borbo
Edição: Valdívia Costa


A história da música popular brasileira passou e passa por transformações significativas e decisivas para sua existência enquanto arte. Analisaremos (sem muita técnica, pois sou um músico popular e não erudito), de forma geral, quatro expressões da emepebê da década de 1950 pra os anos 2000. Veremos como, só de lembrar, o Brasil promoveu reconfigurações nas linguagens sonoras durante esse período. Para começar, qual foi a qualidade e a característica da mudança dentro da música popular? A batida de João Gilberto.

Quando Caetano chegou em Santo Amaro (SP)¹ veio um amigo dele dizer que tinha um cara cantando e tocando totalmente desafinado. Ou seja, essa novidade de João Gilberto trazer a batida do violão e a forma de cantar diferentes soava tão estranho para a época que o povo a taxou de “música desafinada”. Isso porque havia a primeira turma do violão, do Noel Rosa a Ataulfo Alves, que já se espelhavam nos sambistas dos anos 30 e 40. Nos anos 50, João Gilberto apresenta essa nova perspectiva.

Da mesma forma como ele conseguiu reconfigurar a música brasileira, Jackson do Pandeiro, três anos depois do surgimento da bossa nova (1958), também contribuiu para a música quando chegou com algo parecido, o ritmo sincopado do pandeiro e as tradicionais brincadeiras rítmicas com rima e palavras.

Pelo Aurélio, em sua última definição, a síncope é o “som articulado sobre um tempo fraco ou parte fraca de um tempo, prolongado ou prolongada sobre o tempo forte ou a parte forte do tempo seguinte”. Isso quer dizer, na linguagem mais leiga, que é a parte da música na qual se brinca com o tempo. O canto dos versos desloca-se do tempo em que a música é composta.

As duas técnicas, de João e Jackson, fazem basicamente a mesma coisa, o que para alguns não-especialistas soa como uma desafinação no cantar e no tocar, por causa desse descompasso no tempo musical. Eles dois arrumaram apenas uma forma de melhorar uma coisa que já vinha sendo feita. O coco e o maracatu, por exemplo, vêm da música negra. A síncope também, com os ritmos de quebrar o tempo. A matriz da música negra é muito forte no ritmo.

O jazz também é uma influência da música negra, que ainda desconstrói o compasso e que é “desafinado”, principalmente para quem é acostumado a ouvir somente um tipo de música. Esse tipo de ouvinte vai achar o João Gilberto, o Jackson do Pandeiro e o Miles Davis, no mínimo, excêntricos.

Chamaram João Gilberto de desafinado porque, ao mesmo tempo, ele se apresentava como um cara da música popular brasileira, só que cantando de forma diferente do que a emepebê estava sendo apresentada. Para o amigo de Caetano dizer isso é como se o sujeito criasse uma comparação de todo o passado auditivo que ele teve com a coisa nova que surgia. Ele, imbuído da própria verdade, de saber o que era música de boa qualidade, disse que tinha um cara cantando e tocando desafinado. Isso não foi dito com uma carga de negatividade, me parece.

Até porque João Gilberto deu outra perspectiva à música brasileira, que foi a iniciativa de trabalhar com os acordes dissonantes, o que o jazz já fazia. A complexidade jazzística era notada principalmente por causa dessa forma de compor música. Tom Jobim, o grande maestro, trabalhava com acordes dissonantes. Isso remete à música Saudosismo, do Caetano “... os acordes dissonantes que nós dois tentamos evitar”, se referindo a Gilberto Gil, no caso. Por esse desenvolver da história percebemos que os músicos daquela época eram iluminados pelo “desafinamento” de João Gilberto.

Nem João nem Jackson pensaram em revolucionar o cenário musical do País. Os dois acrescentaram à música um estilo diferente, mas nada pensado. Mesmo assim, João, sem querer, fez surgir o movimento da bossa nova (1950-60). Na atualidade, um grupo que inovou nesse mesmo sentido, pelo ritmo e melodia, foi Chico Science e Nação Zumbi. Neste caso, a música foi utilizada como instrumento ideológico para criar uma forma de pensar e se comportar, que foi rotulada pela imprensa de Manguebit (1990).

No Brasil, nós só tínhamos visto isso com a Tropicália (1970). Foi um movimento político também porque vivíamos uma ditadura no período, então foi inevitável um posicionamento de contra-cultura, o “proibido proibir”. A música brasileira tinha diversas sonoridades, mas não vivia a antropofagia de trazer o que estava sendo ouvido fora do Brasil e mastigar pra dar outro sentido. Unindo as matrizes rítmicas e melódicas extraídas da expressão popular - como o coco, a ciranda, o baião -, aos ritmos universais - como rock in roll -, a Tropicália era assim.

A diferença – O que difere o Tropicalismo e o Manguebit de João Gilberto e Jackson do Pandeiro é justamente a intenção. Jackson tem nele o cantar e o gesticular ritmicamente luminoso, pois tem a luz considerada do artista. Como João também tem. Eles não trouxeram contribuições políticas e ideológicas pra música, mas revolucionaram-na. Já os movimentos trouxeram, além da música, essas características e a estética visual atrelada. O ressignificado foi completo.


Chico Science falou do mangue, do homem na condição de caranguejo. A todo o momento ele canta em metáfora (“da lama ao caos”), transformando o homem em caranguejo. O urubu e o gabiru também têm lugar como classes sociais

Chico não fala da realidade, como Lobão (“eu sou o tenebroso, o irmão sem irmão, o abandono...”), que é atual. Chico é contemporâneo, só que metaforizando. São linguagens modernas e distintas.

Atualmente, a música independente tenta fazer um movimento como estes, marcantes e passados. Não aquele de mãos dadas em prol de um estandarte. Mas de cunho ideológico e econômico, visto que, os artistas inseridos nesse mercado têm uma forma específica de trabalhar e de ser reconhecido como profissional da música. A arte independente trafega ao contrário da indústria da música, sem a “fórmula” perfeita de se compor para o consumo.

O artista popular, quando vai compor, ele não pensa em conceitos. Ele é livre das técnicas e refém da criatividade. Hoje, a música popular tem representações desde o cara que toca pífano ao que toca um violoncelo inserido numa proposta eletrônica. Essa pluralidade nos remete ao passado, quando esse casamento já foi mais glorioso. João Gilberto tocava com acordes dissonantes e pinta de músico erudito. E o povão consumia.

Mas atualmente, as pessoas não consomem mais nada desse tipo. As pessoas se identificam com artistas ditos populares que adotaram um tipo de sonoridade simples de se construir, até bem repetitiva, visto as décadas que se passaram e nada mudou, como o axé music. Com o gosto musical particular e duvidoso, as massas são induzidas a escolher esses trabalhos extremamente comerciais como sendo os “melhores” pelas mídias. As pessoas não estão mais sensíveis às transformações possíveis que a arte pode realizar na música.

Esse tipo de postura pacífica e estatizante do povo coloca em cheque a arte. O artista é muito importante para o grau de percepção da vida. A vida tem várias profundidades. A cada catarse que se tem, a cada elevação do espírito, analisando pela filosofia, a arte dá a possibilidade de brincar com a vida. Ela subverte a lógica (chata) da racionalidade. Sem saber o que é arte e o que é a vida, o ser humano segue sem brilho algum, sem a menor possibilidade de se perpetuar.

Notas:
1. relembrando parte do videodocumentário do show Circuladô de Fulô (1992).

*músico influenciado por João Gilberto.

2 comentários:

Astier Basílio disse...

isso mesmo, Toninho,
tem q se reinventar.
Abração
do brother

Perto de Mim disse...

Isso aí...
O artista é infinito, mas poucos que sabem!