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28 de fevereiro de 2010

ÓDIO DO MOTORISTA E DO MEU EGO


DUPLO - Num dia, irritada com o motrista de ônibus, em 2003, escrevi essa crônica, que reflete um pouco dos nossos olhares sobre as pessoas, como as tratamos e a grande ilusão que é ser um profissional sem qualificação se sentindo o contrário. | imagem: Val da Costa

VALDÍVIA COSTA

Descrever, com minúcias, aqueles maus tratos aos passageiros vai me fazer sentir vingada. Não pude cair com as duas mãos nos cabelos dele. (Cabelos com luzes, ridículo!) Eu e o caminho para o centro da cidade sabemos como aquele motorista era estúpido e despreparado ao conduzir um ônibus coletivo com dezenas de pessoas. Senti ódio do motorista. Mas tudo era conduzido ao seu grande Ego, que estava inflado naquela manhã quente e confusa.

Sinti raiva porque perdi uma manhã linda, infantil, até, de sorrir pra o nada, por causa dessa criatura sem profissionalismo algum, como todo empregado de pequena empresa: verdadeiro desastre das relações humanas. Perdi uma manhã morna, solene, daquelas inspirativas. Preciso disso pra trabalhar, sabia? Algo que me desconecte da realidade por minutos pra me instigar às tarefas diárias e à busca incessante pela sobrevivência. Mas o motorista não quer saber disso. Isso é frescura pra ele.

Na parada do ônibus, os passageiros da periferia vão chegando com cara de sono, todos aborrecidos, pensando no estresse que será andar com aquele motorista. Todos queriam esquecer que o coletivo já vinha semi-lotado. Cerca de 10 a 15 passageiros com as caras mais amarrotadas do mundo, espantando o resto de sono com o mau humor coletivo.

Talvez sentindo essa energia contrária a sua pessoa, talvez só pelo simples prazer de aterrorizar, o motorista surgiu, após a curva, freando o gigantesco ônibus da zona Oeste, um dos maiores da frota, e talvez o mais recheado de baratas. Pela cara dele, que vi através do pára-brisa, o motorista estava pronto pra estragar qualquer dia. Parou o transporte a uns cinco metros de distância devido a velocidade, o que nos fez correr, suar e aguentar os aceleros bruscos do guia da máquina transportadora de gente.

Antes que os passageiros pudessem chegar a roleta do cobrador, o motorista arrancou com tudo, fazendo-nos desequilibrar, tropeçar, xingar, enfim, tudo o que a indignação e o inesperado causa. Pensei: "todos estão passando pela mesma situação, relaxe". Sentei numa cadeira perto de uma janela, catei o livro da bolsa e tentei sair daquela realidade fervilhante em plena 6h30 de uma segunda-feira. Mas ele (o motorista) novamente quis chamar a atenção e, antes da próxima parada, conseguiu.

Ficou a contar a sua larga experiência de homem bem vivido e "bom profissional do volante" com o cobrador, que, por sinal, era bem parecido esteticamente com o colega, com aquelas mangas das camisas dobradas, estilo caminhoneiro. Detalhe: as confidências trabalhistas eram ouvidas por todos, pois os dois conversavam aos berros, por causa do motor do ônibus e da falta de noção dos dois.

Na quarta parada subiu uma senhora idosa. Com suas limitações na fala, ela pediu uma informação, que nem o motorista nem ninguém entendeu direito. Nesse momento, ele quis mostrar uma certa educação, tentando convencê-la de alguma coisa, mas com o ônibus em movimento, e a senhora angustiada por ver que teria de descer pra pegar outro ônibus. Como não foi possível uma comunicação entre os dois, o motorista 'inteligente', que só tirou a senhora do canto, a deixou na próxima parada.

O ônibus partiu, fiquei olhando a cara da mulher, parada, sem entender nada do que tinha acontecido. Dentro do coletivo, o motorista ficou se lamentando pela 'falta de orientação' da mulher, que fez aquilo só pra ela 'se ligar e não ficar pedindo parada ao ônibus errado'. Fiquei com a imagem da mulher inocente na cabeça e pensando nas quantas facetas ocultas usamos no cotidiano, como ele fez, com pessoas que indesejamos.

No longo trajeto de 25 ruas com mais de 100 pontos de ônibus foi uma tortura. O mal-estar que sentia acompanhou-me pelas ruas inteiras, longas, do fim do bairro. O motorista incorporou um megalomaníaco ser que queria possuir as ruas veloz e violentamente. Era um exibicionismo que eu dispensava, mas que era obrigada a acompanhar. E passávamos, saculejando, rangendo alto com brutalidade.

"O ônibus passou rápido hoje", comentavam as senhoras nas calçadas. Era o super, mega, ultra motorista. Ele, o homem que está traspassando a cidade, cortando sete bairros, sem pensar em nada mais imediato do que que virar, alinhar, frear, acelerar etc. A periferia o nota, naquela manhã perdida pela sua ira, no topo da cadeira do ônibus. Nem sei quantas vezes me senti assim, senhor do nada...

Um comentário:

xistosa - (josé torres) disse...

Então foi uma aventura tipo "safari" em África.
Não deu para baralhar as ideias e aparecerem novas?
Um motorista assim é um deus, (só para ele) e um diabo para os outros.
As facetas que tem o dia-a-dia.

Uma boa semana sem onibus, ou melhor, sem motoristas loucos.