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23 de março de 2010

TRANCADA EM SI


INTROSPECTIVA - Ela nem sabia ao certo as delicadezas da vida, pois nunca havia se aberto, nunca, sequer, tinha beijado, mas julgava o contato físico desnecessário e a frieza uma doutrina de encher seus balões interiores. | imagem: Les Vacances de Hegel

VALDÍVIA COSTA

Sou toda e tão profundamente egoísta que não paro para pensar nos outros todos os dias. Sou tão centrada em mim que preciso que me toquem para despertar do meu universo. Mergulho demais nas minhas entranhas. Mas, mesmo sendo essa devoradora de mim mesma, me sinto só. Embora muitas vezes ou quase sempre não admita, tenho receio de levar um não.

Tenho receio de me abrir e me invadir de outro ser que não seja eu. Tenho medo mesmo de ser invadida. Lidar comigo mesma, com o que eu quero, com o que eu gosto, é moleza. Duro é ter que encarar o outro. Ter que ceder, que dividir, que combinar, que ajustar... é muito cansativo rever meus conceitos e preconceitos. E, em contato com o outro, eu preciso fazer isso sempre, diariamente.

Não gosto de lutar por qualquer outra pessoa. Parece-me demasiadamente suplicante ter que cuidar desse sentimento, correr atrás dele quando ele fugir ou convencê-lo a ficar antes dele partir. Não posso abrir mão dos meus objetivos pelos de outra pessoa. Não quero ficar triste ou entristecer alguém, por isso, escondo-me em mim mesma, encho-me comigo mesma, acabo-me de tanto que me consumo, sem altruismo algum.

4 comentários:

cacholacultural disse...

Val, você sempre me surpreendendo com sua maneira de escrever... senti uma influência de Clarice Lispecto, uma mulher atrevida, a frente do seu tempo, da mesma forma que você. E o melhor de tudo é não estar sozinha no meu universo individualista (sem confundir o individualismo com egoísmo). Mas sabe de uma coisa, conheço algumas pessoas que vivem a vida dos outros, com a desculpa de serem os bons samaritanos e acabam por construiu castelos alheios, e somente ao final, percebem que não viveram nem possuem castelo onde reinar.

De acordo com disse...

Pra mim, o importante é construir algo, pra si ou pra alguém, contanto que se divida o tempo entre a pessoa e o resto do mundo. Essa personagem q incorporei nd tem de mim. rsss Alguns pensaram que foi um desabafo ou algo assim. Mas é só pra sentir como uma pessoa egoísta se sente, como ela age... é interessante ser o oposto do q se é. =)

Ahyalla Riceli disse...

Esse é um dos melhores textos que já li nesse blog. Gosto da Clarice e esse texto tem um 'quê' dela!
Consegui me encontrar em certos momentos.
Você tem um talento inquestionável e sabe usá-lo muito bem. Parabéns!

De acordo com disse...

Logo, este texto fará parte de uma pequena primeira coletânea de crônicas que lançaremos em breve. Em e-book. Aguradem!