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28 de maio de 2010

A FOTOGRAFIA TRANSFORMA


FLAGRA: Imagens do antigo Hospital João Ribeiro, em Campina Grande-PB, desativado depois de publicação das fotos no jornal Correio da Paraíba e matéria sobre negligência médica aos doentes mentais. Reativação do tema 'artigo' com nova roupagem. | imagens*: Antônio Ronaldo

A FOTOGRAFIA COMO INSTRUMENTO
DE CRÍTICA SOCIAL TRANSFORMADORA DA REALIDADE (2009)

Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)
Disciplina Cidade e Cultura Visual, do Mestrado em História


**VALDÍVIA COSTA(1)

Poucos são os trabalhos jornalísticos atualmente que têm cumprido seu papel cidadão de ajudar a população a encaminhar ou resolver problemas sociais. Dada a importância de se documentar historicamente os casos em que essa atividade tem cumprido o seu papel ético, o presente artigo refere-se ao tipo de jornalismo que se envolve com uma temática a ponto de solucionar um possível embate surgido a partir do fotojornalismo, que será analisado aqui como instrumento de crítica social transformadora da realidade.

O primeiro registro de que se tem notícia sobre uma prática desse tipo no fotojornalismo foi em seus primórdios no início do século XX. Os repórteres fotográficos começaram a trabalhar a fotografia como referência imagética para uma transformação social logo na primeira década desse século. Foi notado por Gisele Freund (1995), que os primeiros fotojornalistas surgiram entre 1908 e 1914. Alguns começavam a entender a realidade a sua volta como fonte de inspiração para conscientizar a população acerca de um problema social.

A autora alemã, que atuou como uma das primeiras mulheres fotojornalistas a surgir na França na década de 1930, apresenta Lewis W. Hine, um sociólogo que flagrou com sua lente o trabalho infantil nos Estados Unidos antes dele ser combatido pelas leis. Nas imagens do fotógrafo, em 12 horas diárias, os pequenos realizam trabalhos de adultos nas fábricas ou nos campos. A temática não era recorrente e os estudos de Gisele não indicam se havia uma intenção desses fotógrafos em conseguir transformar uma determinada situação desigual ou injusta para uma parte da população.

Se o alvo desse fotojornalismo, nesse período, era acabar com esse tipo de trabalho explorador e desumano ou não, a autora não comenta. Mas Gisele diz que as fotografias das crianças trabalhando despertaram a consciência dos americanos e suscitaram uma mudança na legislação sobre o trabalho infantil.

Gisele ainda relata que esse trabalho de Lewis foi o primeiro que deu à fotografia uma característica de arma na luta em melhorar as condições de vida de pessoas pobres(2). A partir desse recorte de tempo podemos perceber que a fotografia passa a ser lida também, visto que sua linguagem visual passa do estado conotativo para o denotativo ao agregar texto à imagem no fotojornalismo. Vamos dialogar um pouco com Roland Barthes (1978) e descobrir qual a diferença entre esses dois códigos que fazem da fotografia uma retratação da realidade, mas também um símbolo metafórico, dependendo do olhar empregado no objeto fotografado.

Depois desse episódio com as crianças de Lewis notamos que esse tipo de fotografia começa a recorrer mais nos periódicos, já consolidados e com públicos definidos. Diante da realidade econômica, política e social nos períodos que se seguem entre as duas guerras mundiais, os fotógrafos tiveram vasto material humano de muita pobreza, exclusão e injustiças.

Intencionados ou não para fazer crer que esse tipo de imagem causava realmente uma mudança ao ser publicada e comentada entre as pessoas, os repórteres fotográficos usaram e abusaram dessa temática ao longo desses últimos 70 anos. Era o que Gisele definiu como o fotojornalismo moderno, atividade tão atual e objetiva que até a nitidez da imagem ficou em segundo plano, em detrimento do assunto e da emoção que a foto foi capaz de suscitar explorando temáticas humanas(3).

A mesma emoção e comoção que abateram também os EUA ao ver a fotografia de uma criança nua, correndo queimada, gritando por socorro entre os fugitivos de uma invasão bombardeada americana no Vietnã (1939). Essa foto em particular mobilizou organizações mundiais de combate às guerras e de direitos humanos, que se uniram em defesa do fim da guerra do Vietnã.


No Brasil, a imprensa já trabalha com esse tipo de imagem no sentido de provocar ações e soluções para os problemas sociais. Embora muitos meios explorem o fotojornalismo denúncia apenas pelo sensacionalismo comercial que o mesmo causa, muitos profissionais conseguem resultados profissionais através de imagens de um cotidiano moldado pela lógica capitalista, excludente e marginal, que deixa parte da população carente de muitas necessidades.

Um desses problemas foi retratado em Caxias do Sul (RS), ao flagrar a mãe sentada numa calçada, próxima a restos de lanches, enquanto a filha pede dinheiro num carro. O motorista pára ao notar o tamanho da criança. Em qualquer cidade que tenha um tráfego intenso de carros é comum vermos as mães usarem os filhos para pedirem nos sinais de trânsito e nas ruas.

Talvez a imagem não tenha circulado muito porque encontrei-a no blog Brasil contra a pedofilia(4). Os Ministérios Públicos de alguns Estados brasileiros já estão linkados no blog e em contato com essa realidade. Supomos que esse contato virtual é válido porque, daí para aplicar um método de trabalho que controle ou elimine o problema social, é mais viável. O contato desses órgãos públicos com o fotojornalismo, que retrata a realidade vista no cotidiano de todos, menos no das autoridades, poderá ocasionar mais um desfecho que essa atividade profissional provocou.

Ao adotarmos a ideia de fotojornalismo empregada por Barthes, a fotografia de imprensa é uma mensagem porque, para a foto ser feita, ela passou por uma fonte emissora (jornal), um canal de transmissão (jornal ou revista) e um receptor (leitor). Além disso, a foto ainda recebe sua característica primordial para identificá-la como jornalística, uma legenda, um texto pequeno que “informa” o que tem na foto(5).

Para o autor, a imagem fotográfica é uma mensagem sem código. Como os desenhos, quadros, cinema e até o teatro, Barthes definia-as, assim como a fotografia, de mensagens sem códigos devido as suas reproduções analógicas da realidade. E todas, para ele, comportam dois sentidos apenas, um denotativo e outro conotativo, definido pelo autor como “a maneira de leitura e o que a sociedade pensa sobre o que foi fotografado”(6).

Por pensar justamente na imagem que proporciona um desfecho social e a conotação, definida por Barthes como a imposição de um sentido segundo a mensagem fotográfica propriamente dita, elaborada desde a escolha do tema a ser fotografado até o lugar que a imagem terá na página de um jornal, é que escolhemos a série fotográfica realizada no hospital João Ribeiro, localizado no bairro da Liberdade, em Campina Grande (PB), no ano de 2005.

O tema fotografado teve a sua importância como produto fotojornalístico. Enquanto imagens denunciativas, o ensaio serviu como motivador para a transformação da realidade. Além desse fator primeiro que norteia este artigo, também nos detemos na conotação feita pelo autor do ensaio, o fotojornalista Antônio Ronaldo, 45, que usou enquadramentos e perspectivas fotográficas que dessem a entender à população o nível de crueldade no tratamento desumano que os pacientes desse hospital estavam sofrendo.

Antônio Ronaldo foi o autor desse furo de reportagem fotográfica na Paraíba, que acarretou em duas implementações importantes para os doentes mentais de Campina Grande, o descredenciamento do hospital João Ribeiro e a instalação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) na cidade.

O tipo de sentido provocado nas pessoas que viram as fotografias dos pacientes do hospital João Ribeiro foi o de revolta, visto as continuidades de materiais jornalísticos que foram produzidos a partir da matéria veiculada no jornal Correio da Paraíba. Aliada às imagens reais, de pessoas sofrendo, sendo tratadas sem o mínimo de critério profissional, está a sensibilidade do fotógrafo, que conseguiu captar outras mensagens subjetivas do ambiente.

A série fotográfica utilizada neste estudo é formada por cópias digitalizadas das fotos originais que têm cerca de oito megapixels cada uma. As imagens foram feitas com uma Nikon D100, lente 17-35mm, sem flash, num período de oito minutos, segundo explicou o fotógrafo Antônio Ronaldo.

O trabalho fotojornalístico surgiu de um trabalho freelance que o fotógrafo realizou para a Secretaria de Saúde municipal, a pedido de uma representação do Ministério da Saúde que fiscalizava os hospitais psiquiátricos do Brasil. Disfarçado de membro da equipe da secretaria municipal, o fotógrafo mal entrou no hospital e já percebeu o que ele teria de material de denúncia.

(...)

*As imagens foram gentilmente cedidas pelo repórter fotográfico.
** Quem desejar ler o artigo completo, deixe um comentário com e-mail.

Notas:
1 Especialista em Comunicação e Educação (2007) e graduada em Comunicação Social pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) em 2002.
2 FREUND, Gisele. “A fotografia de imprensa”. In Fotografia e Sociedade. Tradução de Pedro Miguel Frade. Lisboa, veja, 1995 (p.106-111).
3 FREUND, Gisele. “A fotografia de imprensa”. In Fotografia e Sociedade. Tradução de Pedro Miguel Frade. Lisboa, veja, 1995 (p.115)
4 Pesquisa na internet no blog Brasil contra a pedofilia.
5 BARTHES, Roland. “A mensagem fotográfica”. In Teoria da Cultura de massa. Introdução, comentários e seleção de Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro, 1978 (p. 303).
6 Idem (p. 305)

8 comentários:

Anônimo disse...

Val, parabéns pelo seu artigo, muito profissional, uma pena que você não esteja no mestrado comigo, pois você tem muito conteúdo e iria fazer um trabalho brilhante. Mas daqui a pouco estaremos juntas, quem sabe?
Lindo artigo, merecedor de prêmio.
Um beijo muito carinhoso.

Maria Aparecida, mestranda em História (UFCG)

Mirella Burity disse...

Olá Valdívia, tudo bem?
Eu faço mestrado na ufcg tb. Minha pesquisa é sobre loucura aqui em campina e há um tempão que eu tento encontrar a foto da capa do Correio da Paraíba tirada nesse momento da intervenção com os internos tomando banho. Você já viu? Se você suber como posso conseguir eu agradeço. Pq ja tentei no Correio daqui mas me disseram q só posso encontrar no de jp.
Agradeço muito a sua ajuda.
=D
Abraço, Mirella.

Renner disse...

Olá Bom dia, poderia disponibilizar o documentário completo? Meu e-mail é r.ronkalle@yahoo.com.br

Anônimo disse...

Oi Valdívia Costa sou Suanne Souza estudade do curso de Ciências Sociais na unifap e me interessei bastante pelo seu trabalho. Você tem como me disponibilizar seu trabalho? Fico grata. Meu E-mail: su.anne.souza@hotmail.com

Josélia disse...

Gostaria que mim enviasse o artigo completo, meu e-mail é joseliacc2009@hotmail.com

De acordo com disse...

Gente, obrigada pelo interesse no artigo. Estou respondendo a todos na medida do possível e encaminhando para quem tem interesse didático/científico no trabalho. o/

Silmara disse...

Por favor, me envia o artigo completo. brigada
silmarapb@hotmail.com

Dayanne Azevedo disse...

Olá, Gostaria que mim enviasse o artigo completo, meu e-mail é dayanne.azevedo@gmail.com. Desde já, obrigado.