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2 de junho de 2010

LIÇÃO DE POLÍCIA


APRENDIZ: Aspirante a policial aprende em um dia a ser sarcástico, característica marcante dos agentes de inteligência da corporação. Texto de setembro de 2003. | imagem: Severino Silva (Agência O Dia) No Borel
Menino de oito anos ganha autógrafo dos policiais do Bope


VALDÍVIA COSTA

Fabinho viu um filme de "polícia e bandido" que o impressionou muito e, no auge dos seus nove anos, o fez decidir: queria entrar para a polícia. Estudava no bairro do São José, em Campina Grande, e descobriu que a Central de Polícia ficava lá. Depois da aula desviou da rota costumeira e foi visitar a delegacia.

Na entrada deu de cara com um gato sarnento e ficou estupefato com o rabo cotó do bichinho, além de se comover com suas feridas. Mas pensou: "polícia não tem tempo de cuidar de bicho não!", tentando incorporar o perfil machão do cargo que queria ocupar.

Como não conhecia nada ali, entrou na primeira sala que viu, a Delegacia de Roubos e Furtos. Curioso, o garoto começou a sabatinar os agentes. Ele queria saber de tudo, desde onde guardavam as armas até onde prendiam os bandidos. Um dos agentes mais impacientes passou a tarefa de explicar as coisas ao pequeno aspirante a outro colega, que também não se mostrou menos tolerante.

O delegado viu o empurra-empurra e, pra se mostrar líder, chamou Fabinho. Mas não resistiu ao sacarsmo costumeiro reinante numa delegacia e brincou: "e na Polícia Militar é que tem emoção pra você explorar", ironizou o delegado.

Fabinho acabou sacando a tiração de onda e foi pra casa. Indignado por não ter recebido a devida atenção, ele desabafou sua ira numa redação de tema livre, a vingança esperada. Inspirou-se num texto virtuoso e virulento:

"Na polícia só tem enrolão. Eles fazem cara de mau, andam com revólver na cintura, mas não sabem nem pegar ladrão. Fui visitar uma delegacia e eles não me mostraram os presos. Disseram que era pra evitar um susto. Mas eu sei que a cadeia está é vazia..."

A professora riu e mostrou a redação a outra colega, que era casada com um dos policiais que tinha brincado com Fabinho. Ao comentar com os outros tiras bateu um remorso coletivo e eles chamaram o garoto pra mostra como eles trabalhavam de verdade.

Aquele corporativismo anti-fofoca que os policiais fazem irritou mais ainda o garoto. Porém, Fabinho foi gentil e igualmente satírico com os agentes ao responder: "mudei de ideia. Quero ser bailarino agora. Algum de vocês sabe dançar?".

2 comentários:

Emanoella disse...

Val...

Adorei, um conto ou relato?

Muito bom nos dois casos...

De acordo com disse...

É um conto da área policial, por onde andei muito, Manu. Dos mais expressos... ;)