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22 de junho de 2010

"QUEIRAM-ME..."


DESLEMBRADA - Quando o que fizemos some da nossa memória, como um refúgio, um acalento do retorno negativo que a vida trouxe. Texto de agosto, num cotidiano factual de 2003, baseado em fatos reais. | imagem: Paraíso Niilista

VALDÍVIA COSTA

Longos 40 anos passaram e lá estava Alzira desbotada. Hoje, ela era uma foto amarelada largada pelos cantos, pelos seus dois filhos. Como se não bastasse a velhice, este estado de impossibilidades, ela agora aprendia a lidar com aquele peso. Interrogava-se, dia e noite, o motivo do abandono. Por que seus filhos sairam da sua vida sem dar explicações?

O abrigo para anciãs não era ruim. A comida era boa, servida quentinha; as roupas eram limpas, cheirosas e sempre tinha companhia pra conversar ou dormir. Mas ela sentia uma pertubadora tristeza. Era como se todos os seus anos de maternidade tivessem recebido um castigo. Naquele quartinho pequeno, se balançava sentada, refletindo a punição que sentia não merecer.

Seria injustiça mesmo o que os filhos cometeram? No último contato, Alzira recebeu uma carta de Regina, a filha que morava em Salvador e tinha tido o primeiro filho. Aquelas poucas linhas eram um presente. Mas bombardeou em resposta à carta milhares de questionamentos sobre a distância e o silêncio intermináveis. Não houve resposta durante os dois anos seguintes.

Fernando partiu ainda adolescente. O mundo sempre o atraiu e, nas últimas palavras ao telefone, ele foi claro em não querer voltar à Campina Grande. Dele, ela nem esperava o último cartão de Natal, há cinco anos, com frases curtas e frias, talvez já advertindo o sumiço.

"Tanto carinho e preocupação com a educação, cuidando das doenças que me afastavam da delegacia... tudo em vão", pensava a octagenária Alzira. Hoje só restava seu silêncio e o receio da morte por trás da cortina surrada. A certeza do desamparo é um vento gélido que passa a mão nos seus cabelos brancos e sussurra um próximo fim nos seus ouvidos.

Como crente em Deus e ciente da velhice, ela até acreditava ter feito algo de muito ruim e, por isso, talvez, merecesse o desprezo da prole. Mas ela não conseguia lembrar o que aconteceu. Dois filhos, dois castigos. Assim foi a vida para Alzira.

"Como será a fisionomia do meu neto? Outro dia ouvi-o me chamando: vó! Ainda olhei repetinamente para o portão do abrigo. Mas era só minha velha imaginação querendo vê-lo", constata, melancólica. A noite para ela sempre terminava com dúvidas. O dia geralmente iniciava com um apelo velado, daquilo que ela nunca pensou pedir repetidas vezes...