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27 de julho de 2010

HOLIDAY, DO LUXO AO DESMAZELO


DESMEDIDO - É difícil ver um edifício histórico sendo dominado pela cafussagem que descuida de um patrimônio cultural. | imagem: Val da Costa

VALDÍVIA COSTA

Quase três mil pessoas pensando, isoladas, mas juntas, dentro de uma grande caixa, dividida em pequenas gavetinhas. Eles vivem nas nuvens, numa curva acentuada, artística, que expõe uma arquitetura dos anos 1950, que teve seu glamour na época. Edifício Holiday na Rua Salgueiro, 73, Boa Viagem. O perfil desse habitante luxuoso do Recife antigo era o de um solteiro, num quitinete, com vista larga e exclusiva do mar. Hoje, é um roedor da história enfeiando a fachada do prédio.

O maranhense Marcelo Abreu, que trabalha há anos no Correio Braziliense, contou a história desse edifício curioso, estética do urbano do real, plural e desconectado internamente.

De longe, ele lembra o formato de uma meia-lua. A intenção foi essa mesmo. Deixá-lo com cara de meia-lua. Construção arrojada, pé direito alto, sete colunas de 36 metros de profundidade para sustentação. Concepção modernista, mão-de-obra retirante. Ainda hoje, não há como não parar para olhar. É, apesar do visível desgaste, da decadência e do rosa desbotado que encarde a fachada, uma rara obra de arquitetura. Um marco. Em 1957, na inauguração, um enorme tapete vermelho enfeitou a entrada principal. A cidade parou. Carros suntuosos estacionaram nos arredores. Uma gente bem-nascida ali entrou. A elite se deliciava com a vista do prédio, a 50 metros da praia. À frente, não havia outro edifício. Eram apenas ele e a imensidão do oceano.

Naquele dia, inaugurava-se a era dos arranha-céus de Boa Viagem. Seria o endereço de fim de semana das famílias abastadas. Ou moradia dos filhos de gente rica que vinham do interior para estudar na capital. Apartamentos pequenos — quitinetes, um ou dois quartos. Conceito moderno até então. Na verdade, ele todo era ousado. Ter um imóvel ali, na Recife de 1957, era sinônimo de luxo. Até o nome era chique: Edifício Holiday. Endereço: rua Salgueiro, 73, Boa Viagem. Não precisava dizer mais nada. Hoje, é melhor não dizer.


O que o repórter não falou nesse texto outros jornais já exploraram demais. Assim como o edifício do Cassino Eldorado em Campina Grande, o abandono já sentou mansamente em sua cadeira de descanso eterna. Conviver com instalações elétricas danificadas, com fiação à mostra, sem extintores de incêndio, é a rotina agora do Holiday. O prédio tem 17 andares, com 416 imóveis, sendo 317 quitinetes, 65 apartamentos de quarto e sala e 34 com dois quartos. Com essa multidão subindo e descendo diariamente, os elevadores também são outro problema de irregularidades nas instalações e nas casas de máquinas, segundo os jornais de Recife.

Não entendo porque alguns desses edifícios históricos de muitas cidades brasileiras não estão protegidos como patrimônio cultural material. O governo era para mantê-los com reestruturações plenas e permanentes. Sem precisar de tanta burocracia ou do interesse do proprietário. Pobre Holiday! Entregue a habitantes cafussus, advindos de diversos lugares do mundo, de diferentes crenças e costumes, submetendo o prédio a essa pelagem castigante e duradoura. Não bastasse os edifícios sufocando-o, roubando-lhe a visão do mar! Por ser uma curva no tempo, ele é estruturalmente feito para se destacar.

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colaboração: Filhos da Pauta

20 comentários:

Toninho disse...

é uma vista muito doida...

Ivan Linares disse...

Valeu pelo "post"! Prédios velhos sofrem neste Terceiro Mundo! Dá uma passada no Centro do Recife pra ver outros ex-prédios classe A velhos, desbotados e até desabitados, por causa da especulação imobiliária!

Ah, só uma coisa: quando falar da capital de Pernambuco, seria legal usar o artigo antes, como é da tradição secular por aqui: jornais DO Recife, vou AO Recife, "O" velho Recife...

Obrigado pela atenção!!! E boa sorte com seu blogue!

De acordo com disse...

Não vi, professor Ivan, onde eu não escrevi 'do' Recife... Mas tudo bem. Escrevi por modismo mesmo, como todo mundo chama 'o' Recife. O importante é ressaltar que escrever com ou sem artigo antes do nome de uma capital não é errado. É uma força de expressão coloquial, somente, nada que seja tido como erro gramatical. =)

Carlos Alberto Noronha disse...

Seu texto referente ao Edf. Holiday, é correto ao afirmar o propósito inicial do projeto. Tratava-se de um projeto de alto luxo e arrojado para a época, 1957, para frequentadores vips da praia de Boa Viagem.
Apesar do destino cruel de tão arrojado projeto, cujas formas são conhecidas no país inteiro (não só pela má fama de seus habitantes), e detentor de premiação no exterior na década de 60.
Passados mais de 50 anos o mesmo ainda impressiona pessoas sensíveis que captam o real intuito do projetista (naturalizado Pernambucano nascido em Portugal), o Engenheiro Civil Joaquim A.M.Rodrigues, falecido em 1987 em Fortaleza/CE, onde vários de seus projetos são objeto de admiração e considerados marcos arquitetonicos da cidade de Fortaleza.

De acordo com disse...

Obrigada, Carlos, pelo complemento da informação. O Joaquim era fera e sua obra arquitetônica não vai ser inferiorizada por causa desses 'detalhes'. 0/

Edmilson Sousa disse...

Concordo plenamente sobre a preservação e uso saudável desse tipo de monumento. No entanto, acho que o problema essencial não é a classe das pessoas que nele habitam, mas sim a administração do edifício. Qualquer edifício mal administrado cai em decadência. Os atuais moradores têm total direito de parmanecerem onde estão. Critico profundamente a maneira como a matéria os tratou
"Pobre Holiday! Entregue a habitantes cafussus, advindos de diversos lugares do mundo, de diferentes crenças e costumes, submetendo o prédio a essa pelagem castigante e duradoura..."

Existe algo chamado "educação patrimonial", que pode ser posto em prática nesse tipo de caso"

Sinceramente, o problema é mais em cima!

De acordo com disse...

Obrigada, Edmilson, pela contribuição. Se eu fosse reescrever esse post retiraria esses 'excessos' q utilizei mais p chamar a atenção, como cafussus e etc. hehehe... e vc tem razão: tudo passa pela administração msm. Afinal, se houvesse uma que impusesse regras rígidas de manutenção e um programa de revitalização, acho que o Holiday melhoraria sim. Como qq lugar q se reorganiza, com a ação conjunta. Um amigo que mora em frente já me contou que houve uma melhora no local desde o ano passado. Agradeço novamente a colaboração!

Anônimo disse...

Se o poder público não socorrer esse edíficio, poderá ocorrer uma tragédia com um número elevado de vítimas. Um incêndio por exemplo.

Anônimo disse...

o hollyday hoje como em passado recente esta entregue a uma gang(sindico e seus) que usam de um "poder" que legalmente nao os tem para tirar proveito proprio; invadindo apto, nao recolhendo INSS, fazendo ganbiarras em todos tipos de trabalhos e loteando toda area do edificio aos olhos de pessoas simples que nao tem a CORAGEM DE LUTAR, INTIMIDADAS POR DITA GANG. ACOOOOOOOOOOOOOORRRRRRRRRRDA HOLLYDAY. por outro lado, o velho "poder" publico como uma funcionaria que me disse "ali nao tem jeito,e um poco sem fundo". para pessoas como esta filha da puta, que trabalha em um orgao publico e nao exerce sua juncao de receber, encanminhar e informar a quem de direito seus direitos como moradar para solucionar os problemas ali existentes. Estas pessoas juntas com a ineficiencia deste "poder", contribui para que pessoa como este "sinico" se proliferem e permaneca aonde estam causando danos ao patrimonio e lesando as pessoas em toda sua dignidade como cidadao

Emanuel Costa disse...

Parabéns pela matéria. Postei seu link para alguns condôminos do meu prédio para exemplificar como o descuido da administração de um condomínio pode levá-lo a ruina. Realmente o Holidey é imponente, bonito arquitetonicamente, chama a atenção pela sua forma. Certamente sua administração foi deficiente, pois como os compradores eram pessoas ricas não me leva a pensar em outro motivo para sua decadência. E no passar dos anos ele agora chama a atenção pela sua ruina no meio de tantos outros prédios pomposos de Boa Viagem.

De acordo com disse...

Obrigada, gente, pelos comentários. Já faz três anos que postei sobre o edifício. Não sei se ainda continua o mesmo. Ao retornar ao Recife, vou procurar saber. ;)

Luppi disse...

O texto está muito vago sobre o porque do prédio estar o desmazelo. Uma boa pesquisa ajuda na hora de fazer o post. Esse prédio tem muita história. Pesquise melhor.

Anônimo disse...

Valdivia, voce não tem nenhuma autoridade para falar de nos! Muitos aqui são trabalhadores e pais de familia. Não vou negar que existem muitos assassinos e prostituas, mas vir aqui e falar mal de todo mundo que mora é um disparate! Por favor peça desculpas

De acordo com disse...

Gente, eu fiz este post sem investigação nenhuma, há muitos anos. Fiz um texto opinativo a partir da minha visão de turista, não de jornalista. Tá certo, utilizei alguns termos como "cafussus" que ofendem quem mora nele. Mas, pelo visto, alguém precisava dizer isso pra se gerar uma discussão acerca do prédio, que é sim um patrimônio arquitetônico mal cuidado. E muito mal conservado pelos moradores. Se a administração está falha, imaginem os moradores, que penduram colchões molhados nas janelas, "enfeitando" a estética do edifício! Desculpa pela falta de seriedade e profundidade no assunto. Mas, se quiserem algo mais profissional, mais jornalístico, e sendo morador do local, como este último comentário de um "Anonymo", procurem os meios de comunicação da cidade, como os jornais impressos, as TVs... Valeu!

Roberval disse...

Você deveria ver o filme "Deserto Feliz" que se passa em grande parte no Edifício Holiday para entender um pouco da vida lá. http://www.youtube.com/watch?v=U7h6QJad2Og?t=51m37s

De acordo com disse...

Assistirei, Roberval.

Roberval disse...

Valdivia, olha essa imagem do Google Maps, o que vc tem a dizer sobre isso.

https://maps.google.com.br/maps?q=SALVADOR&hl=pt&ll=-12.972826,-38.511888&spn=0.000725,0.000991&sll=-19.963381,-44.035507&sspn=0.001409,0.001982&geocode=Ffw0z_4dV3Jh_SFAxCtoniheoindA90j-JemADFAxCtoniheog%3BFZwQ0P4dh0dh_Q&t=h&dirflg=r&ttype=now&noexp=0&noal=0&sort=def&hnear=Salvador,+Bahia&z=20&layer=c&cbll=-12.972852,-38.511925&panoid=2C0myJ7ZlHcUgJHJj2h_sA&cbp=12,116.98,,1,-28&start=0

De acordo com disse...

Eu cito isso no texto, Roberval... outros edifícios de arquiteturas das mais variadas estão passado por situação de abandono parecida. Inclusive dei como exemplo um prédio de Campina Grande-PB, o antigo Cassino Eldorado, que está desse mesmo modelo da tua foto.

Blogger disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Roberval disse...

Eu vi o cassino eldorado, realmente muito triste.
Se vc conseguir, suba essa rua que eu passei, usando as setinhas do street view.

Ela se chama 'ladeira da montanha', é a unica rua que passa embaixo elevador lacerda de salvador ,um dos principais pontos turísticos da bahia e do brasil.

Ela é um museu do descaso e abandono, voce vai ficar surpresa com o tanto de obras arquitetônicas lindas se decompondo é triste de se ver.

a rua é pequena, ela fazia a ligação da parte baixa com a alta antes do elevador no seculo 18), ela e 95 % composta de arquitetura do seculo 18.
Se vc ver me fala o que achou