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1 de abril de 2010

NA FEIRA OCULTA, O ELDORADO


FAMOSA - A maior parte dos visitantes da década de 1950 da Feira de Campina Grande-PB tinha que comprar na Casa do Charque, hoje mais um prédio histórico abraçado ao abandono... como muitos outros da antes exuberante feira, que é musa de diversos artistas, sobrevivente soberana na cabeça de quem suspira arte, ou nessa crônica fotoprojetada. | imagens: Val da Costa

VALDÍVIA COSTA

Respiro um ar puro, mistura de neblina com cheiro de manga. Já tá em época. Passo pela Rua Cristovão Colombo por volta das oito horas da noite e ainda tem feirante arrumando a bagunça. Hoje tem dança até de madrugada, melhor comprar umas mixiricas... Tomara que Zefa queira dançar comigo hoje. Tem jeito não, daquela mulher me querer, meu Deus do céu! (a rua que o boêmio descreve é a da foto)



Antes do Eldorado vou passar aqui na Casa da Loira. Tem umas meninas novas que gostam de ouvir minhas histórias de luta com os caboclos pernambucanos... Vira e mexe, eles vêm pra cá cantar no Cassino e querem pegar todas as mulheres da feira. As pobres são da vida, mas a gente respeita. Elas dão um amor muito especial pra quem tem carinho com elas. Dão mais pra quem é assim do que pra quem chega com bocão, mostrando fartura e notas de 100.



Entrei nesse cabaré cantando, elogiosamente, a música que Jackson tava começando a tirar no pandeiro: "Eu gosto de Maria Pororoca, de Josefa Tributino, de Carminha Vilar... ô minha flor, minha pequena, Campina Grande, minha Borborema..." Todas entraram no ritmo e gostaram.






Depois de uns afagos e tragos, chego ao garboso Eldorado. Dizem que hoje tem um grupo de dançarinas de Paris, que vieram fazer uma dança moderna, chamada Can can.








Essa entrada, sempre tão bem segura, com "leões de chácara" que Zefa traz Deus sabe de onde. Hum... que perfume! Hoje as meninas capricharam!








Vou deixar pra passar pelo paraíso dos 30 quartos no fim da madrugada... A feira hoje foi boa pra o armazém de estivas, mas pai só me deu o merecido. As meninas cobram caro. Só posso visitar uma por semana. Prefiro me deleitar com as moças do salão, ouvindo e dançando uma boa gafieira.






E o luxuoso salão ainda está praticamente vazio. Ai, ai... vou tomar umas cachaças no primeiro andar. Será que Carminha está com Zefa? Meu primo Valfredo vem exclusivamente hoje pra encontrar com ela, que já foi avisada. Tomara que ela bote o vestido de organdi que ele mandou fazer na medida.






O poeta Ronaldo já está no carteado?! Ele não perde uma novidade. Como Zefa traz, nem que seja, uma dançarina nova por sábado, os filhos dos coronéis e dos políticos sempre estão por aqui, como ele, que só faz beber e escrever, a noite toda.



Nossa, como está abafado aqui! Esses ventiladores não estão dando conta. Cadê Zefa e Carminha? Deu pra ver uns carrões chegando... Vou esperar Valfredo tomando minha dose lá no salão. Ao menos está mais ventilado...



Finalmente, Zefa... Tão afetuosa, recebendo no salão de festas. Não sei como podem falar mal dela, que só trouxe alegrias. Sem esse Cassino concordo que seria uma nau à deriva. Na Serra da Borborema a gente vê arte, conversa poemas e sente um frio na barriga ao vê-la, a Zefa Tributino do Eldorado.

2 comentários:

Anônimo disse...

Morei por 5 anos em Campina Grande e não conhecia a história do Eldorado. Só depois de um tempo, soube da história do prédio histórico da cidade.

Maria das Neves Pereira disse...

Preciso dessas imagens, mas não estão carregando! Mandem-me