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9 de outubro de 2010

O COMBOIO

REBLOGADA - Este conto é triste, mas soa como aqueles conselhos que nunca ouvimos na adolescência, que viram realidade imitando um castigo. Texto amigo de Portugal @imagem: Inséte
XISTOSA

Outubro de 1969.

O “Foguete” detém-se na estação de Coimbra B.

Então o homem – cerca de 65 anos, cabelo grisalho, farto bigode levanta-se, pega num maço de tabaco que transporta no casaco e sai para a gare, para “tirar duas passas”.

Passaram uns cinco minutos quando o comboio encerrou as portas e começa a mover-se lentamente.

A mulher olha atónita o seu marido, que fica em terra completamente alheio à partida do trem, sem alterar qualquer gesto, aspirando profundamente o fumo do cigarro.

Ela exclama em voz baixa:
António! António!
Enquanto a gare acaba de passar ante a janela...

Depois, rodeada por alguns companheiros de viagem, explica aturdida que António levou os bilhetes, o dinheiro e a documentação do casal.

A mulher conta, num português desajeitado, entorpecente, que iam ao Algarve e tinham intenção de pernoitar em Lisboa.

Não há telemóveis.

Que deve fazer agora: sair em Fátima e regressar a Coimbra B, ou seguir viagem até Lisboa?

Pergunta aos circundantes mas também o pergunta a si própria, porque não consegue afastar a suspeita de que António a abandonou, disse-lhe adeus pelo procedimento de apear-se – metafórica e literalmente – de um comboio em viagem.

O tempo perdeu-o.

Uma eternidade depois chega ao Entroncamento.

Um jovem ajuda-a a colocar as malas na gare e despede-se dela, que permanece com o olhar perdido, fitando fixamente um ponto situado no final da gare, quiçá o semáforo que se porá verde para que o comboio empreenda a seu curto caminho até Lisboa.

(É uma história antiga, mas recordei-me dela há uns dias, quando fazia a mesma viagem. Não me contaram. Eu viajava junto ao casal, separado deles tão só pelo corredor. Acho que é o final mais triste de uma relação que conheci).

3 comentários:

Toninho disse...

Bacana!!!!

xistosa - (josé torres) disse...

"Foguete" era o nome do trem (comboio) que fazia a viagem Lisboa-Porto.
Todas as imagens são da Internet.
Fico imensamente grato pelo desvelo que (não) merecia.

Um abração de gratidão.

Anderson Ribeiro disse...

Muito bom. Na dose certa da dor. Um murro no estômago e um absinto pra anestesiar.