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8 de setembro de 2010

QUEM É MAIS HUMANA?


CONVERSÃO - O humano muitas vezes vira máquina, e o natural é estar no ciberespaço, totalmente inconsciente da vida... | imagem: Val da Costa

VALDÍVIA COSTA

Respiro o que dá pra sugar desse ar repartido. Divido o espaço com ela, a devoradora das belezas. Mete-se na frente do natural, aparece do nada e se faz notada. Apesar de bonita em cores e formas, ela é montagem humana, eu não.

Fico a regar as plantas, iluminar a terra escura ou poeirenta, inspirar a um poeta apaixonado. Ela, a tremular, corre por pontos concorrentes em segundos, atrai os olhares e vai embora, levada pelas correntes fortes do Sul, fugaz e insolente.

Não reclamo porque, afinal de contas, entendo que ela não tem noção do que é nem do que eu sou. Ela só faz isso porque foi feita para aparecer. Eu não sei pra que fui feita, mas não tenho dono, nem roteiro. Apenas existo e sou alvo por isso.

Ficamos, as duas, no céu. Tarde da tarde nos encontramos, às vezes. Ela, ignorando seu estado inanimado, passa esnobe num semi-círculo desenfreado na minha frente. Também não sou obrigada a falar com quem me é indiferente.

Mesmo que esse ser não saiba de si nem de mim, eu que nada também posso saber, não me obrigo a dar-lhe algum entendimento. Ainda mais hoje, que estou cheia de coisas tristes, enjoada com esse itinerário permanente da constelação solar...