O céu é o playground preferido dos órfãos... | imagem: Kukowski
# Iran chegou à casa da avó Fafá há alguns meses. No meio da noite, um pesadelo o belisca num sobressalto. Entre um soluço e outro, com o nariz constipado de uma angústia que ele começa a conhecer, o menino cochila. Seus quatro anos de vida são insuficientes para que ele absorva completamente uma grande perda.
Chorar, dizem, é uma forma de lavar a mancha da mágoa... Talvez nem a lágrima limpe uma dor como a desse encurtado guerreiro. Talvez ele se torne, ainda que um pouquinho só, meio esquivo. Pois, de noite, Iran fecha os olhos e “pei-pei-pei”... a morte o perturba.
A mão da sua mãe o acorda caindo pesadamente e sem vida por cima do seu rosto. Assim, ele dorme duas horas, acorda, dorme... Mesmo quando sente o sono, ele vê o sangue crescendo, formando flores gigantes vermelhas no lençol bege que enrolava o corpo jovem da mãe Nete.
Noites antes, estavam ele, ela e seis irmãos deitados no chão da minúscula sala, assistindo TV até tarde. Todos se estendiam, todos se entendiam e dormiam, se aquecendo de um serrano frio abraçados, enroscados ou simplesmente colados uns nos outros.
“Pei-pei-pei”... o chão se abriu na cabeça de Iran, que foi acordado pela morte e resfriado aos gritos pelos outros desesperados irmãos. Iran sentiu, sob efeito do sono, os empurrões o expulsando para fora de sua casinha... Mas eram reais as balas, o ódio e a solidão.
Ainda bem que a fala quente e fofa da Fafá acaricia Iran... Sua voz, mesmo fúnebre, o acalenta. Fafá improvisa cantigas murmuradas entre suspiros que faltam... porque, assim como ele, tem uma escada de irmãos esperando por ela, único afago de um novo e mal planejado orfanato.
E o mal-estar ainda ronda as várias redes e colchonetes espalhados e pendurados nos poucos cômodos da nova provisória morada. Entre um soluço e outro, uma prece, um sinal da cruz... e Fafá. Desconsolada no silêncio raro que, depois de dias, ela conseguiu achar no escuro, quando todos os netos dormiram, ela enfim pode chorar e sentir saudade da filha.
#valdíviaCosta
SOCIAL - A cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas violentamente no Brasil. A pesquisa foi realizada pela Fundação Perseu Abramo com o Sesc Pesquisa, em 25 Estados, ouviu em agosto do ano passado 2.365 mulheres e 1.181 homens, sendo que 8% dos homens admitem já ter agredido a companheira. O estudo revela ainda, que "Os dados mostram que a violência contra a mulher não é um problema privado, de casal. É social e exige políticas públicas", diz Gustavo Venturi, professor da Universidade de São Paulo (USP). (Fonte: Ensopados da História)
# Como interpretar o mundo mergulhado num silêncio que nem a fala, nem a música e nem outro som qualquer venham sequer insinuar significados? As artes parecem guiar bem as pessoas que não possuem um dos nossos mais utilizados sentidos, a audição. Além de interpretar o mundo através de uma tela ou de uma poesia, os surdos possuem uma língua própria, para muitos a única disponível, a Língua Brasileira de Sinais (Libras).
E é com o corpo todo que se fala a Libras. A naturalidade do gesto se torna símbolo. É uma forma de falar e ler a partir de imagens, que não são signos estáticos. Uma conversa em Libras são corpos em movimento. Como se o corpo fosse todo se transformar em cada significado daquela palavra proferida. Provavelmente foi numa conversa dessas, em Libras, que surgiu a ideia de colocar jovens surdos em contato com o audiovisual.
Nesse diálogo entre jovens surdos, educadores e intérpretes de Libras, rolou uma experimentação. E essa nova linguagem artística, treinada em meses de aprendizado, exigiu novos símbolos para expressar termos relativos à técnica da animação e da produção de vídeo. Sem problemas insolucionáveis! Foi criado um glossário, um dos produtos finais da Oficina, que deve ajudar a expandir o léxico em Libras. Tudo foi criadopela intérprete de Libras Creuza Santana, com a ajuda de Poliana Conceição e dos educadores Diego Mascaro e Renata Claus.
Foram essas cabeças pensantes que projetaram a primeira mostra de curtas em stop motion do Recife-PE, que exibirá o resultado dessa união hoje, 25, com uma exposição de animes no Cinema da Fundação.
A série de curtas de animação foi produzida no âmbito do AnimaLibras, o novo curso do projeto FotoLibras para a formação de jovens surdos. Uma iniciativa que projeta Recife num cenário de inclusão sócio-cultural importante, como vem fazendo nos campos das artes, comunicação e educação ao promover eventos.
Os surdos terão mais esse mercado de animadores pra explorar e aprender a desenvolver a partir dessa iniciativa. Até porque todos os 20 participantes da Oficina são de famílias de baixa renda, precisam desse apoio. Com idades entre 17 e 34 anos, nem todos são alfabetizados na língua portuguesa. Segundo a equipe organizadora do evento, há um despreparo das escolas para a educação de pessoas com necessidades especiais, como os surdos.
O audiovisual é mais uma nova linguagem que melhorará a expressão desses jovens, bem como uma forma de dar visibilidade à cultura e aos direitos dos surdos.
Pioneiro no Brasil, o FotoLibras foi criado em 2006 com o objetivo de oferecer a jovens surdos novas possibilidades de expressão através da Fotografia. Aumentaram a criatividade, a autoestima e a visibilidade dos jovens surdos e da sua cultura.
SERVIÇO
AnimaLibras -
Mostra de stop motion realizados por jovens surdos
Exibição visual e lançamento da série "Sou Surdo, sou Feliz!"
As pás não pararam de trabalhar durante alguns dias... | imagens: Val da Costa
# Bega foi nosso vizinho durante alguns anos. Morava num quartinho na estimada Cova da Onça, Feira Central de Campina Grande-PB. Uns dizem que ele morreu na rua; outros comentam que a irmã o levou pra casa. Real mesmo foi o que ele deixou pra trás: dois caminhões de lixo.
Bem que eu achava estranho... Ele entrava em casa subindo. Como alguém entra num único andar simulando que está subindo uma escada? Desconfiávamos que ele colecionava materiais reciclados em casa, porque todo catador sempre guarda algumas coisas... mas daí a achar que o que Bega subia ao entrar no quartinho era uma montanha de lixo, era demais.
Não eram sacos gigantes de plásticos dos mais diversos. Nem caixas e mais caixas de tecidos de todo tipo. Muito menos algo que parecesse um mini depósito de materiais reutilizáveis. Era lixo do mais autêntico e molhado. Lixo com chorume, amontanhado de coisas de tempos remotos, talvez até de antes dos anos 1980.
Buldogue se prontificou a "limpar" o quartinho em troca de uma dinheirinho. Ele subestimou a capacidade humana de criar e reter lixo. Em meio as pazadas que todos deram ao longo de uma semana de retirada desse material, Buldogue era o mais empenhado a dissolver aquele acúmulo bestial que fazia a população de rato migrar pra o seu quartinho (ao lado desse de Bega).
O homem é surpreendente com suas criações e as ausências delas. O lixo que tanto nos incomoda ao ponto de mandá-lo para fora de nossas casas quase diariamente, era posto para dentro daquele quartinho. Por que Bega se misturava ao lixo? Era um solitário. Um sujeito cabisbaixo, que andava todo roto, como se tivesse tomado um banho de ferrugem. Catador no sentido menos profissional da palavra. Um tipo sem rosto, de cabelos grudados, como num rasta de sujeiras mil... (parece que não tinha dentes, pela fala...)
Talvez tivesse seus motivos para o isolamento. Às vezes, gente se mostra esfinge. Viver como a maioria vive, ter hábitos de higiene e organização é ultraje! Gente que come e vive do lixo reflete num silêncio esquartejado pela chegada do próximo caminhão.
Buldogue e mais uns oito homens dispostos terminaram de encher o segundo caminhão de lixo depois de muito desconforto. Bega era um catador simples, que saia de noite com um espaço oco no lugar da barriga, tossindo rouco... Talvez fosse sujo por causa de um estado de ser que ele próprio rejeitasse...
Não se sabe para onde, de fato, ele foi. Mas ficou o seu legado, o lixo. De uma certa forma, de maneira mais distribuída, esquematizada, a gente também expele a mesma quantidade de resíduos sólidos ao longo da vida. Bega apenas inverteu o movimento.
Fico confusa, sem saber o que é correto, se o que fazemos ou o que Bega fez com o lixo. (Talvez, se eu triturar tudo no liquidificador e servir para a Terra acostumar e engolir mais rápido...)
CONFERÊNCIA INTERNACIONAL + FEIRA DE ARTE E DESIGN
7 ANOS DE VIDA, 4 CIDADES, 96 PALESTRANTES, 23 LIVE PAINTINGS, MUITA ANIMAÇÃO E CRIATIVIDADE, 31700 PARTICIPANTES, MAIS DE 20 REVISTAS E MUITAS FESTAS | Tão inspirador que acabei criando um post diferente. | Imagens: Zupi
# Ai, que vontade de ir a Recife! Ia ver os "pauzinhos do Brenand" espalhados pelo pedaço de mar que lambe o Marco Zero... E rever os colegas que se bandiaram todos pra essa cidade desumanamente linda. Depois ia ver uma parada muito legal que vai começar sábado. O nome é bacana: Pixel Show. Primeiro evento brasileiro que trata da criatividade, essa palavra que pregam na testa da gente quando se sabe fotografar, ilustrar, graffitar, se vestir, entre outras manifestações artísticas e visuais.
Deve ser legal assistir um monte de gente que trabalha com arte misturada a tecnologia. Também, hoje, quem não trabalha, fica meio marginal ou desfocado. A conferência é organizada anualmente pela editora Zupi, que vem conseguindo projetar o evento desde 2005 como um acontecimento de sucesso no Brasil. O Pixel atualmente acontece em São Paulo e Porto Alegre, além do Recife.
Num evento desse, nerds, analistas de redes sociais, profissionais de marketing e comunicação, celebridades virtuais e demais saem renovados. Por que iniciativas assim demoram a acontecer em todo lugar? Bom, ainda bem que tem em Recife, que pode oferecer palestras, workshops, feira de arte, exposições, festival de animação, sessões de live painting com artistas consagrados pintando enquanto os DJs mandam ver nos bits.
Como eu sou uma pessoa de coração puro, não poderei ir, mas induzo os outros a irem. Lá vão estar profissionais dos games, concept art, design, animação, cinema, intervenção urbana, novas mídias, charges, cartoons, artes plásticas...
Artistas brasileiros e internacionais discutirão temas atuais sobre a arte moderna e o mercado de trabalho. Dizem que esses temas inspiram e motivam profissionais de todas as idades no Pixel Show. A visionária Zupi oferece um espaço gratuito e aberto ao público com a feira na qual empresas ligadas ao segmento artístico, tecnológico e outras vertentes poderão apresentar seus serviços e produtos.
Como a programação é vasta, indico que visitem o site, muito arrumadinho, com tudo o que qualquer visitante precisa sobre o evento e sobre toda a cadeia produtiva econômica e turística ao redor dele. Mesmo assim vejamos alguns dos palestrantes. CRANIO . GRAFFITI (Brasil)
Nascido em São Paulo, Fabio "Cranio" é um dos grandes nomes do Graffiti no Brasil. O artista trabalha nas ruas desde 1998, pintando índios azuis em muros de sua cidade natal. MULTITOUCH BARCELONA . DESIGN DE INTERAÇÃO (Espanha) O grupo de design Multitouch Barcelona cria instalações e produtos em que o indivíduo é convidado a interagir com a tecnologia, a criar, tocar, sentir. Prometem uma palestra bem multimídia e contemporânea. RAUL LUNA . MULTIMÍDIA (Brasil) Pernambucano natural de Recife, Raul Luna é um artista multimídia, que atualmente atua nas áreas de ilustração, design, música e vídeo. Foi um dos fundadores da TV Primavera, coletivo experimental que procurava problematizar a presença da mídia digital na sociedade.
SERVIÇO
QUANDO: 16 e 17 de Julho de 2011
ONDE: Centro de Convenções de Pernambuco Av. Professor Andrade Bezerra, s/n, Salgadinho | Olinda - PE
Temos tanto futebol assim? Já não estaria na hora de mudar o canal e investir tempo e dinheiro em algo mais real? | Imagem: Hedilberto Júnior
# Queria uma palavra não tão amena nem tanto asquerosa para definir o futebol brasileiro. Sei do seu poder. Só que, para mim, ele não influi em absolutamente nada. Vou escrever uma vaia então. Para todos que alimentam o falso espetáculo do esporte na mídia. Foi ela quem enfeiou tudo ou a ganância quem deixou os jogos raquíticos? Ou será que futebol do Brasil está plasmado, talvez numa câmara espectral, esperando uma reedição?
Falo isso apenas como torcedora, óbvio. Mas existe muita diferença do atual profissionalismo para a fase brilhante na qual começamos lá atrás, chamada de amadora. Será que foi a TV que amoleceu o futebol do Brasil para o telespectador engolir melhor o engodo? Há tanta diferença que vivemos um eterno saudosismo hoje, após as partidas. “Ah, como a bola era feliz...”.
Desconfio que parte dessa encomenda mal pautada para apreender a atenção de uma massa, ou seja, de um público de milhões, é papa midiática. Sim, porque desde o surgimento do esporte aqui no país, a prática recreativa se transformou em espetáculo teleguiado. Antes, os jogadores eram vistos por poucos e ao vivo.
Sem querer magoar qualquer pretenso famoso jogador, não vou citar craques que acompanhei, os que a própria TV me apresentou. Vou relembrar apenas um, talvez o protótipo de uma espécie que foi extinta, O jogador. Atleta olímpico que, ao invés de ganhar com dribles, investia dinheiro numa prática que era elegante, apreciada pela aristocracia inglesa, sua genitora, digamos assim.
Desse jeitinho era o mineiro, que viveu no Rio de Janeiro. O historiador Marcos Carneiro de Mendonça foi o primeiro goleiro da seleção brasileira, reconhecido como o melhor do Brasil pelas seleções internacionais e pela imprensa local. Uma peça fundamental no primeiro título da seleção, em 1919, no qual o time jogou sem treinador. Além de entender o esporte, o goleiro era transdisciplinar, como o filósofo Edgar Morin denominou o cruzamento de diversas áreas do conhecimento. Marcos tinha habilidades de um matemático, com a inteligência de um poeta filosófico.
Como uma visão totalmente híbrida entre o homem e a bola faz toda a diferença! Enquanto hoje os jogadores são milionários narcisísticos descompromissados com o empenho ou com a qualidade do futebol, Marcos era focado no esporte, leitor da crônica esportiva sem intérprete, como os “comentadores” atuais.
Enquanto hoje assistimos ao futebol pela TV, como o esporte mais popular do país, a 100 anos, o jogo era singelamente uma “matches de football” (partida de futebol), um esporte inglês totalmente amador e jogado pelos rapazes de classe média, segundo o biógrafo Roberto Athayde (“O bandeirante do ferro” - Global Editora - S. Paulo - 2010). De acordo com o livro, Marcos era o primeiro ídolo futebolístico brasileiro. Atuou no marco inicial da bola no Haddok Lobo, depois no América e por fim no Fluminense.
Desde 1910, o futebol também era um ótimo difusor da língua inglesa no mundo. A narrativa esportiva possuía termos como goalkeeper (goleiro) e kieks (chutes). Numa das entrevistas, ele mostrou sua inteligência ao atuar em campo com precisão no gol.
“Tudo é ação direta. A bola, para o goleiro, tem que ser uma figura nítida, que vai se conjugar ao seu corpo. É preciso entrar num conjunto de detalhes de ordem técnica para ser um grande goleiro. Preparar o corpo, os reflexos todos, para se estabelecer uma unidade perfeita entre a bola e o homem. A bola é o elemento perturbador que o homem tem que saber anular”.
Pela lógica, essa fase em que estamos era para ser melhor que a do goleiro Marcos. O futebol devia produzir mais partidas interessantes, melhores craques... E o que temos de mais relevante nesse esporte hoje? A capacidade de projetarmos o marketing do "melhor" além das fronteiras do país (ou nos seios de uma torcedora que ocupa a sessão "delícia" nos jornais internacionais)? Uma legião de zumbis balançando bandeiras esfarelantes, exibindo violência na peladona de domingo pra ser notícia diária repercutida e continuada?
Os patrocínios? Isso é bom para os clubes. Campina Grande investe R$ 30 mil/mês em cada clube futebolístico profissional. O lençol é tão bom... mas descobre sorrateiramente a Cultura, que treme de frio, tosse e está na sarjeta. Analisando a situação mais amplamente, o Brasil nem pode recepcionar um evento como a Copa do Mundo 2014, desta vez segundo a própria Fifa.
As justificativas do secretário-geral da Associação de Federação Internacional de Futebol (Fifa), Jerome Valck, pela crítica convicta e irada no mês passado na Rússia, são de que os atrasos brasileiros nas construções dos estádios megaloblásticos, preparação das estradas, da rede hoteleira etc. podem comprometer o evento. Ingênuo não, bem eloquente. Ele pôs as esperanças agora no nosso atrativo principal, o futebol brasileiro, e armou a arapuca. É bom que o Brasil esteja melhor do que está na Copa América!
Já que o “conjunto de detalhes de ordem técnica” para nos definir profissionalmente enquanto futebol de qualidade está sem harmonia (como Marcos perceberia), eu, torcedora, desligo a TV. Vou ler História ou Filosofia que o futebol já foi superado. Fiz um bilhete mental para evitar recaída... "Xô, fantasma redondo!"
Os experts merecem ser lembrados. Esse poeta paraibano, Pinto, cantador de viola, tinha o pensamento de navalha, nunca perdia uma batalha de letras nem titubeava no improviso. Peleja travada na década de 1980, escrita pelo companheiro Milanês. Guerreiros de conhecimentos transformando provocações em poesia. | imagem e peleja: Revista Agulha
# Milanês estava cantando
em Vitória de Santo Antão
chegou Severino Pinto
nessa mesma ocasião
em casa de um marchante
travaram uma discussão.
M - Pinto, você veio aqui
se acabar no desespero
eu quero cortar-lhe a crista
desmantelar seu poleiro
aondetem galo velho
pinto não canta em terreiro
P - mas comigo é diferente
eu sou um pinto graúdo
arranco esporão de galo
ele corre e fica mudo
deixa as galinhas sem dono
eu tomo conta de tudo
M - Para um pinto é bastante
um banho de água quente
um gavião na cabeça
uma raposa na frente
um maracajá atrás
não há pinto que aguente
P - Da raposa eu tiro o couro
de mim não se aproxima
o maracajá se esconde
o gavião desanima
do dono faço poleiro
durmo, canto e choco em cima.
M - Pinto, cantador de fora
aqui não terá partido
tem que ser obediente
cortês e bem resumido
ou rende-me obediência
ou então é destruído
P - Meu passeio nesta terra
foi acabar sua fama
derribar a sua casa
quebrar-lhe as varas da cama
deixar os cacos na rua
você dormindo na lama M - Quando vier se confesse
deixe em casa uma quantia
encomende o ataúde
e avise a freguezia
que é para ouvir a sua
missa do sétimo dia P - Ainda eu estando doente com uma asa quebrada o bico todo rombudo
e a titela pelada
aonde eu estiver cantando
você não torna chegada
M - O pinto que eu pegar
pélo logo e não prometo
vindo grande sai pequeno
chegando branco sai preto
sendo de aço eu envergo
sendo de ferro eu derreto
P - No dia que eu tenho raiva
o vento sente um cansaço
o dia perde a beleza
a lua perde o espaço
o sol transforma-se em gelo
cai de pedaço em pedaço
M - No dia que dou um grito
estremece o ocidente
o globo fica parado
o fruto não dá semente
a terra foge do eixo
o sol deixa de ser quente
P - Eu sou um pinto de raça
o bico é como marreta
onde bate quebra osso
sai felpa que dá palheta
abre buraco na carne
que dá pra fazer gaveta
M - Eu pego um pinto de raça
e amolo uma faquinha
faço um trabalho com ele
depois pesponto com linha
ele vivendo cem anos
não vai perto de galinha
P - Milanês, você comigo
desaparece ligeiro
eu chego lá tiro raça
me aposso do poleiro
e você dorme no mato
sem poder vir no terreiro
M - Pinto, agora nós vamos
cantar em literatura
eu quero experimentá-lo
hoje aqui em toda altura
você pode ganhar esta
porém com grande amargura
P - pergunte o que tem vontade
não desespere da fé
do oceano, rio e golfo
estreito, lago ou maré
hoje você vai saber
pinto cantando quem é
M - Pinto, você me responda
de pensamento profundo
sem titubear na fala
num minuto ou num segundo
se leu me diga qual foi
a primeira invenção do mundo
P - Respondo porque conheço
vou dar-lhe minha notícia
foi o quadrante solar pelo povo da Fenícia os babilônios também gozaram a mesma delícia
M - Como você respondeu-me não merece disciplina hoje aqui não há padrinho que revogue a sua sina se você souber me diga quem inventou a vacina?
P - Não pense que com pergunta enrasca a mim, Milanês foi a vacina inventada no ano noventa e seis quem estuda bem conhece que foi Jener Escocês
M - Sua resposta foi boa de vocação verdadeira mas queira Deus o colega suba agora essa ladeira
me diga quem inventou o relógio de algibeira?
P - No ano mil e quinhentos Pedro Hélio com façanha em Nuremberg inventou essa obra tão estranha cidade da Baviera que pertence a Alemanha
M - Pinto, cantando não gosto de amigo nem camarada se conhece a história Roma onde foi fundada? o nome do fundador e a data comemorada?
P - Em l7 e 53 antes de Cristo chegar nas margens do Rio Tibre isso eu posso lhe provar Rômulo ali fundou Roma a 15 milhas do mar
M - Pinto, eu na poesia quero mostrar-lhe quem sou relativo o avião perguntando ainda vou diga o primeiro balão quem foi que inventou?
P - Em mil seiscentos e nove Bartolomeu de Gusmão no dia oito de agosto fez o primeiro balão hoje no mundo moderno chama-se o mesmo avião
M - Pinto estou satisfeito já de você eu não zombo mas não pense que com isto atira terra no lombo disponha de Milanês pra ver se ele aguenta o tombo
P - Milanês, você comigo ou canta ou perde o valor você me responda agora seja que de forma for de quem foi a invenção do primeiro barco a vapor?
M - Eu quero lhe explicar digo não muito ruim a 16 a 87 você não desmente a mim o inventor desse barco foi o sábio Diniz Papim
P - Em que ano inaugurou-se da Europa ao Brasil a linha pra esse barco a vapor e mercantil? Se não souber dê o fora vá soprar em um funil
M - Foi um navio inglês que levantou a bandeira em 18 a 51 veio a terra brasileira sendo a nove de janeiro fez a viagem primeira
P - E qual foi a 1ª guerra feita a barco a vapor? Você ou diz ou apanha da surra muda de cor quebra a viola e deserta nunca mais é cantador
M - Em l8 e 65 a esquadra brasileira dentro do Riachuelo içou a sua bandeira na guerra do Paraguai foi a batalha primeira
P - Milanês, você comigo ou canta muito ou emperra
não pode se defender salta, pula, chora e berra qual foi a primeira estrada de ferro, na nossa terra?
M - Foi quando Pedro II tinha aqui poderes mil em 18 e 54 no dia trinta de abril inaugurou-se em Mauá a primeira do Brasil
P - Milanês, você é fraco não aguenta o desafio eu ainda estou zombando porque estou de sangue frio me diga quem inventou o telégrafo sem fio?
M - Pinto, você não pense que meu barco vai a pique em mil seiscentos e oito na cidade de Munique Suemering inventou este aparelho tão chique
P - Eu já vi que Milanês não responde cousa à toa se ainda quiser cantar hoje um de nós desacoa puxe por mim que vai ver um pinto de raça boa
M - Pinto, o seu pensamento pra todo lado manobra mas eu não conheço medo barulho pra mim não sobra é fogo queimando fogo é cobra engolindo cobra
P - Do pessoal do salão levantou-se um cavalheiro dizendo: quero que cantem pelo seguinte roteiro Milanês pergunta a Pinto como passa sem dinheiro
M - Oh! Pinto, você precisa dum palitó jaquetão uma manta, um cinturão uma calça, uma camisa está de algibeira lisa não encontra um cavalheiro que forneça ao companheiro pra fazer-lhe um beneficio olhe aí o precipício como compra sem dinheiro?
P - Eu recomendo a mulher que compre na prestação um palitó jaquetão a camisa se tiver quando o cobrador vier ela esteja no terreiro eu fico no fogareiro pelo oitão vou furando ele ali fica esperando assim compro sem dinheiro
M - Você em uma cidade precisa de refeição porém não tem um tostão que mate a necessidade ali não há caridade na casa do hoteleiro só encontra desespero fala e ninguém lhe atende fiado ninguém lhe vende como come sem dinheiro?
P - Eu levo um carrapato guardado dentro do bolso vou no hotel peço almoço no fim boto ele no prato faço logo um desacato chamo o garçon ligeiro ele me diz: cavalheiro cale a boca, vá embora; saio por ali a fora assim como sem dinheiro
M - Você precisa casar para ser pai de família precisa roupa e mobília cama para se deitar você não pode comprar cadeira nem petisqueiro atoalhado estrangeiro mesa para refeição você não tem um tostão como casa sem dinheiro?
P - Se a moça amar-me enfim me tendo amor e firmeza não especula riqueza nem diz que eu sou ruim ela ontem disse a mim: eu quero é um cavalheiro e você é o primeiro para ser meu defensor quero é gozar teu amor e assim caso sem dinheiro
M - Você depois de casado sua esposa cai doente você não tem um parente que lhe empreste 1 cruzado ver seu anjo idolatrado gemendo sem paradeiro olhe aí o desespero na porta do camarada só ver pobreza e mais nada como cura sem dinheiro?
P - Eu boto-a nos hospitais do governo do estado pra quem está necessitado aquilo serve demais as irmãs especiais chamam logo o enfermeiro: — Vamos com isto ligeiro tratam com mais brevidade; se interna na caridade assim curo sem dinheiro
M - Oh! Pinto, camaradinha você precisa ir à feira para comprar macaxeira arroz, batata e farinha bacalhau, charque e sardinha tomate, vinho e tempero gás, açúcar e candeeiro biscoito, chá, macarrão bolacha, manteiga e pão Como compra sem dinheiro?
P - Eu dou um jeito no pé envergo um dedo da mão um dali dá-me um pão outro dá-me um café à tarde vou à maré espero ali o peixeiro ele é hospitaleiro humanitário e carola
dá-me um peixe por esmola e assim como sem dinheiro
Com este verso do Pinto
encheu de riso o salão
houve uma recepção
naquele nobre recinto
ergueu-se um rapaz distinto
com frase meiga e bela
disse: mudem de tabela
pra uma idéia mais grata:
nem a polícia me empata
de chorar na cova dela
P - Eu tive uma namorada bonita igual Madalena parecia uma verbena pela manhã orvalhada a morte tomou chegada matou a minha donzela quando sepultaram ela quase a tristeza me mata nem a polícia me empata eu chorar na cova dela
M - Eu amei uma criatura ela o coração me deu na minha ausência morreu
eu sofri muita amargura
fui à sua sepultura
para abraçar-me com ela
ainda via a capela
toda bordada de prata
nem a polícia me empata
eu chorar na cova dela
M - Um dia um amigo meu,
disse com toda bravura
deixe de sua loucura
se esqueça de quem morreu
uma desapareceu
Procure outra donzela;
eu disse: igualmente aquela
não existe nesta data
nem a polícia me empata
eu chorar na cova dela
P - Desperto de madrugada
o sono desaparece
me levanto e faço prece
na cova de minha amada
volto pela mesma estrada
com o pensamento nela
quando eu não avisto ela
vou dormir dentro da mata
nem a polícia me empata
eu chorar na cova dela.
Caros apreciadores
qualquer um que analisou
nem Pinto saiu vaiado
nem Milanês apanhou
vamos esperar por outra
que esta aqui terminou
- FIM -
# SeverinoMilanês da Silva, Juazeiro-CE, 02/01/1982
# Muitas coisas ainda faltam ser feitas na área de comunicação na Paraíba. Temos relatado o destrato com nossa classe desde 2008, primeiro com o movimento Novos Rumos. Apesar de bem desacreditados de mudanças temos nos mantido nas medidas impossíveis da fronteira com a inexistência. Mesmo com essa surrada profissão, estamos emergindo. Uma parte, mulheres.
São muitas que estão se posicionando no mercado. Parecem ser destemidas. Os homens, menos inovadores, estão perdendo cargos de presidências, secretarias... Mas não nos enganemos. As mulheres carregam mais ou menos interesse em mudar alguma coisa? Acreditamos que estamos num caminho mais claro. Antes deve ter havido outros encontros. Mas só podemos relatar o que presenciamos, como boas apuradoras. Por isso notamos que, desde 2007, as comunicólogas começaram a se unir em eventos na Paraíba. Hoje partimos para mais uma jornada que mistura conhecimento e cultura, duas vertentes nas quais bebemos e pelas quais somos isso que somos.
Ressaltamos a garra das jornalistas Mabel Dias e Fabiana Veloso que colocaram a Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária da Paraíba (Abraço-PB) num grande movimento. As duas fazem parte das coordenações de Gênero e Comunicação da entidade e bolaram o I Encontro de Comunicadoras Comunitárias e o Seminário para Jornalistas para o próximo sábado, dia 9. O tema é lilás também: “Mulher, democratização da comunicação e controle social na Paraíba”.
Segundo as organizadoras, o Encontro representa um espaço de discussão das novas tecnologias sociais. É um momento de difusão de novos conhecimentos, como o desenvolvimento social e comunitário dos meios de comunicação.
São encontros como este que fazem a comunicóloga compartilhar um pouco do que sabe, além de interagir com as colegas e trocar novas ideias, tudo como num imenso Facebook. Antes, vimos a área de comunicação silenciada. Percebe-se que as nossas antepassadas colegas esperavam os eventos mais generalizados, voltados para todos os profissionais de comunicação. Que se resumiam nessas festas fakes de fim de ano.
Agora é diferente. A nova leva de jornalistas, principalmente as que atuam em redação, estão com tudo nos discursos sobre as vertentes mais atuais da área. Como as meninas que vão se apresentar no Encontro, as jornalistas Silvana Torquato, Bia Barbosa, Janaíne Aires e Wanessa Veloso. Até a super atarefada deputada federal Luiza Erundina, da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara Federal, estará no evento.
Em meio a tudo, um lançamento de um livro, “Mulheres em pauta – gênero e violência na agenda midiática”, de Sandra Raquew. A radialista Denise Viola, as professoras Ana Veloso e Glória Rabay também estão na programação. O evento tem a importante parceria das secretarias Municipal de Políticas Públicas para as Mulheres, de Comunicação da Paraíba e Chefia de Gabinete da prefeitura de João Pessoa.
SERVIÇO: Dia: 9 Hora: a partir das 9h Local: PBTur, Tambaú, João Pessoa-PB Inscrições: abracoparaiba@gmail.com