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Feiras de pássaros do Nordeste são sempre ambientes tristes, do ponto de vista de quem está preso. | imagens: Val da Costa |
Criadores de aves têm verdadeiro apreço em bater no peito e dizer: “comprei um Azulão”, como se isso fosse a coisa mais fantástica da Terra. O pior é quem é da mesma índole invejar esse atroz caçador/criador de pássaros. Na maioria das vezes, esses indivíduos capturam os animais em períodos de nascimento, promovendo verdadeira carnificina avícola dos pais e maior quantidade de espécies presa.
Ao se inspirar na liberdade e na beleza do canto de uma ave, cuidado pra não virar um entusiasta de animais silvestres, como as famosas e vistosas araras vermelhas. Se tomar gosto pela coisa e se mostrar “entrosado” com as fontes que “descolam” cacatuas e papagaios na maior “limpeza”, você pode ser considerado um traficante de aves silvestres, de acordo com o Ibama.
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Feira de pássaros de Campina Grande-PB: vendedores de pássaros silvestres expõe seus bichos. |
É a falta de oportunidade que faz muita gente cometer crimes sem raciocinar direito sobre o ato que vai cometer ou é o prazer em prender, dominar uma vida? Isso é o que está ocorrendo em Fagundes, no Cariri paraibano. Crianças estão caçando os filhotes do pássaro mais conhecido como Bigodinho para ganhar míseros R$ 2 por ave apreendida. Quem denuncia é o ambientalista Aramy Fablício, que sempre está de olho da fauna e na flora da região da Pedra de Santo Antônio.
Sem ser pago para ser observador da natureza e, muitas vezes, herói dos bichos e das plantas, Aramy nota que as crianças e adolescentes da cidade só se ocupam com a escola. “Sem ter muito o que fazer no segundo horário, procuram uma atividade que gere renda, chegando a ser seduzido pelos compradores que vêm de outros Estados e oferecem dinheiro pelos passarinhos”, completa.
Em outro post, Bigodinho Ameaçado, falamos sobre esses negociantes de pássaros e seus descaramentos flagrados em fotos do ambientalista, que muitas vezes chega a brigar com os caçadores e a ser ameaçado.
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Mini alçapões são vendidos aos lotes. |
Alçapões miniaturas ou armadilhas mais elaboradas, tipo, um gaiolão escondido pela mata, são métodos medievais de caçar pássaros. Uma prática predatória, mas que vem ganhando reforço da tecnologia. Afinal, os caçadores têm agora à disposição GPS no celular pra não se perder nas matas estranhas. Como muitos têm na captura uma atividade econômica rentável, eles se informam pela internet, nos grupos dos caçadores espalhados pelo Orkut e nos próprios sites especializados em caça.
A comunidade mais frequentada do Orkut, com mais de 200 membros, é Eu adoro Pássaros Silvestre, que informa ser para a criação legalizada pelo Ibama. É outra opção para quem quer criar animais silvestres, apresentando um ambiente ecologicamente correto. Mas pássaro sempre vai pra uma gaiola, grande ou pequena, se afastando de seu modo de vida natural.
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Alguns pássaros ficam no sol, a manhã inteira; outros, misteriosos, chegam cobertos. |
A venda de pássaros raros é atividade inserida em muitas “feiras de trocas” espalhadas pelas cidades do Nordeste. Geralmente são aglomerados de negociantes ambulantes, comumente em linhas de trem, trocando ou vendendo produtos de procedência duvidosa, sem nota fiscal e com o diferencial do precinho. Campina Grande possui duas dessas feiras bem conhecidas, e uma terceira em franca expansão.
Os comerciantes de passarinhos silvestres, além dos comuns liberados pra venda pelo Ibama, estão na Feira Central, na Rua Manoel Pereira de Araújo e próximo ao Açude Velho. Essas imagens foram feitas na Manoel Pereira, que só aumenta no tamanho e na diversidade de pássaros, como mostram as fotos. São cerca de 100 metros em extensão por uma rua de largura ocupada com todo tipo de “troço” pra vender.
Porém, o comércio que mais emerge com boas ofertas e muito potencial é o de aves. São diferentes e sofisticados tipos de gaiolas, pássaros bem ou mal tratados, homens, em sua maioria, e crianças, sempre passantes, negociando as aves. Muitas delas chegam em gaiolas cobertas com panos, possivelmente as espécies mais chamativas.
Ibama
Maria Coutinho, funcionária do Ibama local, disse que sempre é feita a fiscalização nessas feiras e constantemente são apreendidas as aves e os vendedores. Mas, no máximo, o que acontece aos criminosos das asas? Assinar um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) e “tchau, papai”!
A situação do Ibama local também não é das melhores, segundo Maria. “Só estamos com dois funcionários, a única viatura foi pra o conserto e até agora ainda não voltou”, relata. Ainda há os inibidores que toda polícia enfrenta. Na ambiental, alguns caçadores/vendedores apreendidos querem reagir e o policial tem que se impor, levar o caso ate a Polícia Civil ou solicitar ajuda da Militar, Federal e até do FBI, em caso de tráfico internacional de animais silvestres em grande escala.
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O azulão é o pássaro silvestre mais comum nessa época (um na gaiola da moto e outro na mão do vendedor) |
#valdíviacosta