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8 de março de 2015

UM BULGARI DO MEU JARDIM

Professora Nicinha, de Jardim do Seridó, gosta de ouvir os ex-alunos mandando recados para ela. 
Fotos e texto: Valdívia Costa


Bulgari é a flor do Jardim que mais perfuma a cidade. São pequenos e cacheados floquinhos branquinhos. São jasmins, na verdade.

Flores, das que cheiram, das que embelezam e das que pintam uma cena. Mas um bulgari está quietinho, quase sem pétalas, num cantinho.

Já foi cheinho de viço, de vitalidade. Mas agora precisa apenas dos olhares. Não mais vai crescer, nem exalar com tanta precisão seu perfume. Mas vive. E come sentimentos à vontade.

De manhã, a florzinha recebe atenção, estrume, água... De noite, ela fita o luar de uma das janelas de toalhas decoradas. Goteja a madrugada, ela acorda, meio aflita com lembranças...

As folhinhas de sua haste vão murchando. Entre ursinhos de pelúcia, o bulgari do meu Jardim mora. “Eu gosto dos ursinhos, são como eram meus gatinhos...”, recorda a pequena flor.

Uma coisa triste aconteceu na vida deste jasmim: ela teve que deixar seus felinos para trás. Mudaram a florzinha de jarro e assim ela saiu do telhado para um outro quintal.

Um dia tão horrendo que até hoje ela lembra entre soluços. “Como pode retirar da pessoa aquilo tudo que ela tem?”, questiona. Mudas pequenas, não teve. Viveu sozinha, entre gatos, amores seus.

“Onde será que estão, meus bichanos?”, pergunta sempre. Como um consolo, começaram a chegar os bichinhos de pelúcia. Ela sabe que não são vivos, mas é saudosa e apegada.

Um raio imaginário atingiu os olhos desse jasmim. E foi um breu. Num fechar de cortinas e num escurecer de repente cegaram Le fleur do meu jardim.

Agora depende de outras flores para saber do dia. Aquele tão lindo e pulsante decorrer de atividades, ensolarados seres vivos e polifônico viver agora são pura sinergia.

As tardes são douradas telas... Momentos de efusão no Jardim delas. Uma luz laranja banha as pétalas, que sorriem, gracejam, tremelicam e soltam pequeninas nuvens de cheiros, “pof, pof, pof”...

É hora do som das vozes aceleradas dos locutores, das músicas “danceiras”. Dá para escutar, ainda. E por onde bulgaris ouvem novidades? Pelo renomado radinho de cabeceira.

Nicinha vai ao banheiro com a ajuda da amiga de quarto, Zulmira.
Alguns depoimentos sobre Dona Nicinha, este bulgari que foi uma professora das mais dedicadas e lembradas da minha querida Jardim do Seridó, são carinhosos. Desde que postei fotos dos idosos do Abrigo de Jardim num grupo da cidade, no Facebook, que a foto dela é a mais curtida e comentada. Mais uma mulher em forma de rosa.

Leiam:

“Ela é um amor. Ela adora os ursinhos dela e quando não morava no abrigo criava gatos. Eram os xodós dela”. Daniele Batista

“Acho que D. Nicinha é do tempo da minha primeira professora em Jardim, D. Zenobia. Fui aluna dela na 4ª série em preparação ao ginásio. Ainda parece com ela quando a via em Jardim”. Maria José

“Também foi minha professora. Com a cartilha do ABC e a tabuada e o caderno de caligrafia. Visitei-a no abrigo no final do ano passado e ela se lembrou de mim”. Eloildo Cirne

 “NICINHA , HISTÓRIA VIVA DA NOSSA EDUCAÇÃO. NOSSOS ABRAÇOS”. Antonio Macena

“D. Nicinha. Grande educadora”. Maria do Carmo Bebezinha

“Também foi minha professora. Com grande satisfação que digo: UMA LENDA. Continua simpática. Abraço!”. Chagas Azevedo

“D. Nicinha... tentávamos tirar um 100, nunca conseguimos, né Goretti DE Nen?”. Cenira Medeiros

“NUNCA, né, amiga, Cenira Medeiros?! Ela dizia que ‘100 não era para aluno’... E nos castigava... Além do que, a letra tinha que ser... não era nem linda... Era perfeita. Minha base... Nossa base e de tantos outros... QUE DEUS A ABENÇOE!” Goretti DE Nen

“Foi minha professora, aprendi a ler e fazer conta na tabuada. Me lembro como se fosse hoje: na época, ela tinha um rádio que ficava em cima da mesa dela. Quando ela ficava nervosa tacava aquele rádio no chão! Eu ia lá para cozinha, para a sua irmã tomar tabuada com a gente. Ela tinha um gato aleijado, quem se lembra?”. José Ricardo Silva dos Santos


4 de fevereiro de 2015

ASSESSOR, PARA QUÊ?

A união entre três profissionais é o que faz uma boa assessoria | Imagem: Escola São Paulo
Por Valdívia Costa

“Cada dia fico mais famoso e preciso de alguém para colocar notinhas nas colunas sociais ou até mesmo falar bem de mim nos jornais. Acho que até já sei quem vou contratar... Aquele jornalista da rádio...”

“Durante o evento, siga-me onde eu for, registre todas as minhas falas. Depois faça uma matéria e envie tudo para a imprensa do Brasil. O mundo precisa me conhecer...”

“Depois que você fizer essa cobertura aí, pegue aquele microfone ali do cinegrafista que está filmando o evento e entreviste os participantes. Todos os 50 precisam falar...”

“A gente vai fazer uma reunião sobre os trabalhos para este ano. Convoque uma coletiva de imprensa para que todos saibam que voltamos ao batente (cof, cof, cof...).”

“Não deixe de registrar nossas acionistas, todas são queixosas porque não saem nas fotos...”

“Ah, já está filmando?” (Apontando para a máquina fotográfica...)

Essas e outras falas são comuns no meio onde trabalho. Sou assessora de imprensa. Uma função que vem se modificando ao longo dos anos, adquirindo nuances mais estratégicas. Todas essas falas foram realmente ditas a mim, durante alguns trabalhos que desenvolvo com empresas e eventos.

Muita gente entende a profissão de assessor de imprensa como uma distorção do trabalho do jornalista. Deduzem que o assessor seria um tipo de profissional “vendido”, que em nada contribuiria para o jornalismo, cidadão e comprometido com todas as classes. O que o profissional dos bastidores da comunicação pode fazer para esclarecer melhor suas funções é se capacitar em gestão para ser um estrategista.

A ampliação das atividades das Assessorias de Imprensa nos últimos anos levou o jornalista a atuar em áreas estratégicas das empresas. Antes um profissional muito mal pautado e remunerado, hoje o assessor torna-se um gestor de comunicação. A integração de outros profissionais como relações públicas, propaganda e publicidade foi o que criou novo olhar sobre a profissão.

Uma boa assessoria atualmente clama por uma equipe multifuncional e eficiente. O perfil desse profissional mudou tanto que muitos assessores andam carregados de equipamentos, visitando parceiros, pegando falas e imagens das mais diferentes fontes internas. Agora temos que posicionar as organizações estabelecendo uma interlocução com ética e responsabilidade social. As instituições e empresas, por sua vez, têm que se comprometer com os valores da sociedade junto aos seus mais diversos públicos.

Terceirizar - As organizações podem contar com equipes de assessorias de comunicação internas ou terceirizadas. Para se ter um setor de comunicação funcionando para uma empresa não é mais nem necessário que o profissional esteja nela ou seja vinculado trabalhisticamente a ela. Atualmente atuo para uma microempresa e é o melhor período na minha vida profissional. Livre de muitos males que assolam algumas instituições mais antigas ou tradicionais, as microempresas dão o tom do trabalho que é hoje desenvolvido em assessoria.

Criar um plano de comunicação que atenda não somente a imprensa com notícias, mas outros públicos, internos e externos, com comunicação, é desafio. Aí entram todas as características desse trabalho, como estabelecer uma imagem comprometida com os seus públicos, criar canais de comunicação internos e externos que divulguem os valores da organização e suas atividades, desenvolver uma relação de confiança com os veículos de comunicação, entre outras.

Preparo - Mas tudo isso esbarra num grande muro, às vezes até intransponível: a orientação do assessorado. Todas as ações modernas e atuais do jornalista-assessor terão maior chance de sucesso, quando o assessorado estiver bem orientado sobre como os veículos de comunicação funcionam, como os jornalistas atuam e quais as características de cada mídia.

Nas relações assessorado-imprensa-cliente o que vale é a credibilidade. A ética é a guia de todos. Porque para o jornalista de redação, a matéria-prima de seu trabalho é a informação. Cabe ao assessor transformar um fato institucional em notícia. E ao assessorado só resta entender o que essas duas partes precisam, atender a pauta e tentar repercutir um retorno com sua fala. O positivo só vem quando todas as partes se unem sem restrições.

Ajuda na formação do texto: Fenaj

Conceito - O que é Assessoria de Imprensa? Serviço prestado a instituições públicas e privadas, para o envio frequente de informações jornalísticas dessas organizações aos veículos de comunicação. Jornais diários, revistas semanais, mensais, especializadas, emissoras de rádio, agências de notícias, sites, portais de notícias e emissoras de TV são os meios para os quais o assessor produz notícias.

No Brasil, quem costuma coordenar esse tipo de serviço são profissionais formados em jornalismo, que determinam o que é ou não notícia para a imprensa. Se algum veículo de comunicação se interessar pelo assunto divulgado pela assessoria de imprensa, a notícia será publicada ou gerará entrevistas gratuitas.

Chamamos de mídia espontânea a que não se paga pela publicação. A assessoria trabalha para conseguir esse “convite”. A nossa atuação atual nos faz ocupar outros espaços, como blogs e mídias alternativas e engajadas. É um jornalismo mais amplo, com o aparecimento das novas tecnologias. Acredito que a atuação do jornalista multimídia é inevitável. Irreversível. Parte desse aprimoramento profissional decorre dessas novas ferramentas. 

27 de outubro de 2014

FINANCIAMENTO COLETIVO PARA 5ª FLIBO

Ler é o caminho | Foto e texto: Val da Costa

Um dos primeiros financiamentos coletivos da Paraíba é para uma boa causa: a literatura.

Reunir a população de uma cidade em torno do tema da literatura ajuda na (trans)formação de novos leitores para novos escritores? A cidade de Boqueirão, a 146 quilômetros de João Pessoa, prova que sim. O município realiza a única feira literária, ininterrupta no Estado há cinco anos. Mais amantes das letras e novos escritores surgiram na cidade com a iniciativa.

Mantida pelo associativismos que move o Interior da Paraíba, a Associação Boqueirãoense de Escritores (Abes), que tem sede na cidade de Boqueirão, no Cariri, a Feira trouxe uma novidade este ano, uma “vaquinha virtual”.

Um dos primeiros financiamentos coletivos realizados no Estado para a cultura é o crowdfunding desta Feira. Para quem quer investir, mas não conhece a Flibo, é um evento que prima pela periodicidade e pelo compromisso de envolver a comunidade local.

Através de projetos realizados com as escolas municipais, públicas e privadas, durante todo o ano letivo, de março a outubro de todos esses anos, a Abes atrai as crianças e adolescentes ao projeto "Minha Escola na Flibo". Essas e outras atividades têm seus custos operacionais e precisam ser mantidos com apoio, limpeza e organização.

A 5ª Flibo já trabalha com colaboratividade desde a primeira edição, com muitos voluntários, moradores da cidade que entendem a importância do evento. Este ano, as atividades são palestras, oficinas, mini-cursos, bate-papo com autores, lançamentos literários, contações de estórias, teatro de fantoches, lançamentos literários, "De repente, poesia" e ainda MPB na Praça. Muita poesia dá o contorno de tudo.

Opinião - Eu fui à Flibo pela primeira vez ano passado e achei lindo... Ver aqueles 500 jovenzinhos e as criancinhas atravessando a cidade, felizes, para ir à praça onde o evento começaria, muito tocou minha alma. Há alguns anos sem me envolver nos movimentos culturais, trabalhando, pude esgotar meu gás produzindo fotos para as redes do evento.

Saí de lá com a sensação de dever cumprido, mas que tenho que fazer algo a mais pela Feira. Porque uma coisa bonita como esse envolvimento do evento com a cidade, com as crianças todas interessadas, bem comportadas e educadas, toca a gente, sabe? Deixa-nos a sensação de que "nem tudo está perdido" mesmo!

Ou eu acredito sozinha na leitura como mola propulsora de uma sociedade transformadora da realidade? Não... antes da minha pessoa vieram os associados da Abes, a população e os alunos da cidade de Boqueirão, que está plantando sementes. O que seria de nós sem os sonhos?!

16 de abril de 2014

MARIA DA CANAFÍSTULA

Texto e fotos: Valdívia Costa

Professora de Caldas Brandão mostra o cemitério da cidade 
Achei-a incrível. Não só pela sapiência, mas por ser tão teatralmente espontânea. Uma mulher de um metro e 60, cabelinho curto, sorriso com dois dentinhos à frente... 
Ela diz logo, a quem percebe: “eu não ajeito meus dentes porque, quando morrer, quero ser enterrada sorrindo pra todos... assim, com os dentinhos pra fora”. Muitos risos na tarde dourada de Caldas Brandão, no agreste paraibano.
Maria Canafístula nos deu uma tarde inteira de narrativas. Na verdade, Maria José, ex-professora e entusiasta da cultura. Foi ela quem me disse: “Caldas Brandão já foi chamada de Canafístula”. E deu-me seu livro, “um sonho realizado”, contando a história da cidade.
Eufórica, essa paraibana guerreira nasceu, se criou e vive até hoje na região desta cidade, atualmente numa comunidade de quase seis mil habitantes. Vive na cidade de Caldas, aproveitando o tempo pra fazer artesanato, vender umas coisinhas...
 Pois ela é indiferente ao distrito do Cajá, que fica na BR 230. Acredita que os governantes foram estúpidos em retirar os prédios públicos da cidade. Não há nem Correios em Caldas. Só pequenas “vendas”. Tudo está no Cajá, há 9 km. Ou na cidade de Malta, mais próxima.
Mas, ela não se importa muito. Afinal, é detentora das chaves da igreja, de suas casas e até do velho cemitério. Vira e mexe, o Rio Gurinhém enche e alaga o local sagrado. Mas é um local bonito, “cheio de paz”. Ela mostra, entusiasmada, as grinaldas que confeccionou no último Dia de Finados. “Vendi 43. Estão todas aqui, olha”, aponta os túmulos.
De tanto idolatrar a cidade, ela plantou a única muda de Canafístula em seu quintal. Com o passar dos anos, a planta foi sendo extinta do convívio dos caldas brandenses. “Vou dar as mudas pro povo plantar”, diz. 
Ah, se em todo lugar desmerecido, afastado, sem muitos atrativos, tivesse uma mulher assim: Maria em seu espírito, com Canafístulas caindo das mãos... 

8 de julho de 2013

BONDADE ANTIPROFISSIONAL

O bom profissional tem o poder de desatar nós, apagar incêndios e desfazer o que o colega fez incompleto ou mal feito. Imagem: Não gosto de plágio
Por Valdívia Costa

# Ao praticar uma “bondade”, doando um serviço gratuito, estamos sendo antigos. O que é bom para nós, como uma “experiência não remunerada”, de forma individual, elegante até, é um antiprofissionalismo fino. E poderá ser um grande mal para o coletivo.

Doar produtos ou serviços quando eles têm preço (parte fundamental de um mercado de trabalho) devia ser crime. Porque a remuneração faz parte do experimento. Sem ela, provamos o pão que o diabo amassou achando que é isso o que os profissionais comem.

Nossas posturas displicentes, arranjadas uns com os outros, e nossa labrogeirice profissional, só nos confere um caráter amador. Não compactuam com trabalho de qualidade as relações desmembradas, proveitosas para poucos ou perigosas para a maioria.

As práticas profissionais mais construtivas deveriam ser as melhores para um conjunto de pessoas. Tipo cooperativismo e busca de evolução em eventos de conhecimento...

O individualismo nos leva a pensar, egoisticamente, que sabemos cobrar por um serviço de uma área mercadológica. Que a cada dia ganha novas tarefas com seus desmembramentos.

Pedimos “qualquer coisa” como se fosse regra de um mercado ilusório, com práticas amigáveis. Só nos afundamos mais ao invés de nos evidenciarmos na sociedade. O que poderíamos valorizar enquanto trabalho, muitos amassam e jogam fora como “experimento”.

Sabe por que profissionais como médicos ou advogados conseguem status e boas remunerações? Entre outras verdades, pela união das classes.

Você já os viu pleiteando serviços em público, como se fossem comadres pedindo batatinha por cima do muro? Já viu? Foi uma mínima ocorrência. O comum é justamente o contrário.

Aos recém-formados pelas academias brasileiras, bem vindos aos seus mercados! Se deleitem na forma proletariada mais primária “constituída pelos trabalhadores que fabricam mercadorias (e serviços) a partir da venda da sua força de trabalho”, como disse o atual Karl Marx.

Mas, antes, saibam que o mercado dividiu as duas classes sociais autônomas no modo de produção capitalista também pelas posturas individuais. Resta-nos a burguesia? Vamos todos ser donos dos meios de produção? Talvez, para os mais empreendedores.

E o proletariado atual? A estes, um mar de regras e tabelas que compõem a queridinha da Ética. Agarrem com as duas mãos na ética! Em qualquer área, ela é a tábua de salvação.

Mas o conceito de classe trabalhadora sofre interferências das atuais mudanças nas relações de trabalho. O setor de serviços cresceu. Atividades como as consultorias não utilizam meios de produção físicos. Se utilizassem máquinas, os donos seriam os próprios trabalhadores.


Por isso, em diversos mercados, vender bem faz parte do DNA das classes trabalhadoras. E isso inclui saber que o seu trabalho tem um valor material. Seja ele iniciante ou não. Cobre pela consultoria. Cobre pelo conserto... Estabeleça o seu preço. Pela duração das espécies.

13 de junho de 2013

ARTE, PARTE DE MIM

Artes do brasileiro do Piauí, Antônio Amaral, que tem um traço dos mais modernosos que conheço... Uma impressão falsa de estar vendo aquarelas multicoloridas, em contextos surreais, muitas vezes metafóricos. Vejam mais do trabalho deste criativo artista: Setcuia, Orbital Seguinte, Hiperfolium e Issu.
por Valdívia Costa

Sentei na varanda e comecei a divagar sobre a arte, essa necessidade de ser diferente e belo e arrebatador. Por onde quer que a arte se apresente, em qualquer uma de suas linguagens, haverá significantes transformações.

A música, por exemplo, é alicate. Ela extrai de mim os abusos que sofro. Ela penetra suave e dominadoramente no meu cérebro. Chega a mim porque ela me escolhe com toques médicos cotonizados, de quem sabe explorar tecidos repletos de hematomas.

Um dia, ela livrou-me da dor do não ser, do não existir, do não importar para ninguém. Livrou-me do homicídio que estamos propensos a cometer por qualquer bobagem.

Deixem que ela salvem! Dos ratos nonsenses, dos opressores, dos falsos e dos bons demais. Que ela cure tudo, até dor de dente. Música é essa linda linguagem que banha a todos com suas ondas advindas das entrelinhas da vida.

Mas a arte plástica também passa a mão em mim! Gosto dessa safadeza que um visual causa... um frenesi, umas reflexõesinhas, algo como “isso deve ser...”. Ah, a incompletude de uma tela, de uma peça ou de uma simples instalação me comove! Queria tanto compor.

Depois de montar uma suposta peça artística de cera poderia filmá-la. Colocá-la num patamar com fundo pro céu... rodar com ela pela casa, feito uma louca feliz e livre da culpa, para sempre. A sonoplastia seriam gargalhadas... ou então falas soltas, como no cinema moderno, documental...

Nem precisaria de atores, mas eu os chamaria. Os colocaria para dançar. Ao som dos celulares, aqueles fones imprensadinhos, abafados, mecanizados... assistiria uma esquete sobre qualquer assunto desses que valem a pena teatralizar. A condição humana, a nossa cultura e o que faremos ao fim do mundo se tornariam elementos do roteiro da peça.

Roteiro este iniciado aqui, com a conhecida sensação de catarse que a arte provoca nos seres humanos. Para não falarem que eu esqueci dos honrosos livros, Caetano concluirá com essa humilde tentativa de elevar letras...

30 de abril de 2013

COM OU SEM SIGNO


Imagem: capturada do Equador das Coisas, da artista Mala Lesbia ("Deer clock with coffee in it")
Por Valdívia Costa
Seria bom se descobríssemos os significados de todas as coisas e pessoas. Colocaríamos uma estrelinha de “signo descoberto” e seguiríamos, indicando para que serve objetos e seres vivos. Veio uma ideia possível... SIGNO = SIGNIFICADO + SIGNIFICANTE.

O signo, como disse o linguista e filósofo suíço, Ferdinand Saussure, “é a união do conceito com a imagem acústica”. Seria como unir o mundo das ideias – significado – e o um não-som material, a impressão psíquica desse som – significante. Os dois, juntos, formando um signo.

O conceito (ou ideia) é a representação mental de um objeto ou da realidade social em que nos situamos. Ou seja, o significado é a representação condicionada pela formação sociocultural que nos cerca desde o berço, conforme Saussure.

Sentido, tudo tem. Nem percebemos tudo muito bem. Mas todas as coisas e seres vivos produzem significado. Não os entendemos, às vezes. A interpretação é falha mesmo, assassina o significante e libera milhares de signos... Distrai. Mas não é verdadeiro.

Noutras palavras, para Saussure, conceito é sinônimo de significado (plano das ideias), algo como o lado espiritual da palavra, sua contra-parte inteligível. Em oposição, o significante (plano da expressão) é sua parte sensível.

Concluindo, o signo linguístico é uma entidade psíquica de duas faces (significante + significado). Estão intimamente unidas e uma reclama a outra. Não há significado sem significante. Significar é andar e viver. Acompanhamos o tempo e sabemos como são os caminhos, os elementos... Até nas entrelinhas. Elas são as mais retroalimentadas de significados.

Para concluir mesmo, de verdade, vamos ver um exemplo que o filósofo deu:

(...) quando alguém recebe a impressão psíquica transmitida pela imagem acústica (ou significante). Graças à ela manifesta-se fonicamente o signo copo. Essa imagem acústica, de imediato, evoca psiquicamente a ideia de recipiente utilizado para beber algo. Poderíamos dizer que aquilo que o falante associa com o significante é o significado vaso. (Fonte: Dicotomias Saussureanas)

“Eu li algo nas entrelinhas...” Dizem isso sempre que algo fica oculto, muitas vezes uma opressão. Comentam que um signo se escondeu numa entrelinha e nunca mais retornou. Quem vê-lo saberá do que estou falando. 

Longe de mim querer entender um mestre como Saussure e querer “dissertar” sobre suas teorias. Só quis atiçar a curiosidade. Quem escreve muito sobre ele são os blogs Semióticas e O Equador das coisas.

Aprofunde-se neste assunto interessantérrimo, de pirar qualquer estudioso, ouvindo Aparente Coisa, do Toninho Borbo. 


10 de abril de 2013

ARTE RUPESTRE NO TANQUES-RN

Imaginar que outros seres vivos estiveram neste lugar, pintaram e escreveram nessas pedras, talvez há milhares de anos, é inspirador... | Texto e fotos: Pedras do Sítio Tanques, de Jardim do Seridó-RN - Val da Costa
Pensar que eles sentaram aqui, para comer, talvez, e aproveitaram a beleza rústica e silenciosa do lugar para criar suas artes, é mágico... 
Há 12 sítios arqueológicos entre os estados do Rio Grande do Norte (10) e da Paraíba (2), segundo o Protocolo de Registro no Estudo das Gravuras Rupestres na Área Arqueológica do Seridó-RN/Brasil, da pesquisadora TaísVargas Lima. Quatro sítios em Carnaúba do Dantas, três em Acari, dois em jardim do Seridó, um sítio em Parelhas, um em Frei Martinho e em em Nova Palmeiras. Este é um sítio arqueológico de Jardim, o Sítio Tanques. Esta imagem é entre as pedras da primeira foto, na entrada do lajedo, onde ficam muitas inscrições espalhadas.
Com a ajuda de Eduardo, meu ex-colega de "ginásio", conseguimos visualizar algumas pinturas e gravuras em baixo relevo, o que indica que o local possui as Tradições Nordeste (mais antiga) e Agreste, além da Itacoatiara, que já abordamos aqui neste blog. 
A dona da propriedade, Gercina Eduarda da Silva, D. Pretinha, mãe de Eduardo, é cuidadosa: "ninguém entra aqui sem permissão!". As pedras estão um tanto quanto "salvas", não possuem pichações... Mas um aglomerado até maior que este fotografado foi totalmente destruído pelo trabalho das pedreiras, muito comum na região... Eles quebram tudo que encontram pela frente para fazer pedras de calçamentos, calçadas etc.
A única referência técnica sobre estas inscrições foi a da Taís Vargas, que fala: "Sítio Arqueológico Tanques do Jardim: Localiza-se no município de Jardim do Seridó (...). Situa-se na localidade Sítio dos Tanques. O seu acesso é pela RN 288, no trevo da Rajada; pega-se a BR 227 na altura do Km 10, que vai até do Sítio Tanques de propriedade de Gercina Eduarda da Silva. Trata-se de um sítio arqueológico que fica a margem de um Riacho com cachoeiras, com blocos de pedra com pinturas e gravuras. O acidente geográfico mais próximo é a Serra da Rajada e Cerrote das Palmas, cujas fontes de água próximas são Barragem dos Tanques e Açude dos Grossos, com afluentes do Rio das Cobras, Riacho das Marcas e Riacho dos Grossos. Os sítios mais próximos são Grossos, Marcas e Escondido da Rajada."
Parece que há um elo entre o passado e nós, que acende quando interagimos com essas formas, especialmente quando passamos as mãos nas letras, expressões das mais variadas, falas das mais diversas, formando uma polifonia marcante, que diz, entre sussurros cantarolantes, como era a vida naqueles momentos...
Gostaria de saber quem desenhou com tamanha precisão, quem pintou um estilo  já extinto, quem nos deixou essas mensagens e, claro, o que elas significam... Se algum historiador souber, por favor, venha aqui nos dar uma luz porque a vida só presta acessa.
Passagem entre pedras, vista de cima da pequena barragem que construíram no local na década de 1980, segundo Eduardo. 
Lindo.
Saímos do Sítio Tanques com uma sensação de incompletude... com a nostalgia cercando a imaginação, fazendo-nos descer de algumas pedras com mais cuidado, mais delicadeza... Pensado nós que esse simples gesto seria uma forma de agradecer pelo momento memorável que vivemos nas pedras...
Ainda faltou ver e fotografar os mocós... Eduardo lamentou tanto: "são tantos, todos os dias eles ficam aqui, nesta pedra, em pé, olhando pra gente... São muito desconfiados, sentiram o cheiro de pessoas estranhas..." 
Eu entendo os mocós... Aparecer neste cenário, sempre é secundário... O melhor é se guardar, pois, dos humanos, tudo se espera!

17 de março de 2013

NEGÓCIOS NAS REDES

Assim vive a sociedade atual, em rede, conectados por interesses. Imagem: Computer World


Por Valdívia Costa

Conversa sobre redes sociais com empreendedores no cenário paraibano.
- Seu negócio já está na internet? – pergunto.
- Eu tenho um feicibuque onde minha mulher posta as fotos – responde, meio inseguro.

Alguns empresários têm vaga noção da importância de se manter ao menos uma página na internet com a marca do negócio, seja pequeno ou grande. É fácil esse empreendedor (iniciante) virtual criar e manter apenas uma rede social. Ou seja, enquanto muitos surgem, a presença virtual de um negócio na Web fica por conta do perfil doméstico e da plataforma menos complicada no uso diário. Mas tem muito mais para quem procura e-business nas redes.

Essa pressão para se conquistar um lugar ao sol de bytes não quer dizer que o empreendedor tenha que se especializar em cibercultura ou estudar formas de alcance na internet. Como também não quer dizer que a pessoa ideal para fazer esse trabalho para sua empresa seja aquele sobrinho que vive o dia todo jogando no computador. Ou a mulher, ou um funcionário já tão sobrecarregado com seus próprios afazeres.

Utilizar tais ferramentas com o propósito de difundir uma marca empresarial, com conteúdo variado e tantos outros atrativos, que são a bola da vez para consumidores, requer uma parceria com um social media. Eles já existem no Estado todo, do Sertão ao Litoral. São aqueles “meninos e meninas” que vivem com seus celulares, tablets e outros dispositivos móveis em todo lugar.

Basicamente, em eventos, eles fotografam e escrevem algumas frases nas postagens. Mas existem outros trabalhos que são deles e que requerem conhecimentos específicos. Qualquer empreendedor individual ou microempresário pode ter um. Se não puder pagar pelas horas diárias de trabalho, a parceria pode ser através de serviços. Ao menos um panfleto virtual decente, atual, eficiente visualmente, ele fará de maneira profissional. Mesmo assim, há quem insiste: para que fazer marketing virtual se eu vendo bem ou sou bastante procurado no mercado?

Simplesmente porque as marcas mais valiosas do mundo estão experimentando uma correlação direta entre desempenho financeiro de ponta e profundo engajamento nas mídias sociais. É regra de convívio social: essa é nossa nova empreitada na cibercultura, segundo Jim Sterne, no livro “Métricas em mídias sociais – como medir e otimizar seus investimentos em marketing” (2011). Os empreendedores que estão nas redes sociais ganham clientes e dinheiro na internet. É mais uma banca para se armar a atrair freguesia.

Profissional - De acordo com Milena Parente, no artigo “Redes sociais - Um universo repleto de oportunidades de negócios e relacionamento com os clientes”, é preciso correr para alcançar o consumidor, não só nas lojas físicas, mas também no mundo online. Ninguém que está começando um negócio teria tanto fôlego. Mas um social media que saiba de tráfego e de conteúdo já consegue vencer a concorrência nessa corrida.

“A relação é aparente e significativa: empresas socialmente engajadas são, de fato, mas bem-sucedidas financeiramente”, disse o escritor Jim Sterne. As pessoas se acostumaram com o território da opinião pública e dos diálogos expostos com os consumidores. Por isso, os empresários que não atendem às necessidades de sua atualidade, infelizmente, regridem, perdem de lucrar e até fecham as portas.

Como falamos em diversos nomes para as coisas da internet, vamos especificar. O social media, gerenciador do seu perfil e de tantos outros, vai atuar em qualquer mídia social. E para que a mídia social serve? São as chamadas “ferramentas virtuais”, que permitem, a qualquer pessoa, comunicar-se com o mundo todo. Neste universo, os importantes difusores são também consumidores. E quem os une nos seus perfis do empreendimento? O social media.

Business – Conforme Sterne, são seis as categorias de mídias sociais. Os fóruns ou quadros de mensagens, os sites de crítica e de opinião, as redes sociais, os blogues, os microblogues e os marcadores sociais. Quer ter uma empresa que utiliza todas as redes  para alavancar seus negócios? Respire fundo e leia tudo.

O mundo dos negócios é regido pelo maior número de vendas que um ser humano possa promover. “Quer esteja vendendo online, por meio de uma força de vendas diretas, quer pelos canais de distribuição, o que as pessoas estão dizendo sobre a sua empresa é, hoje em dia, mais importante do que a sua propaganda”, lembra Sterne.

Por que investir em rede social? - Porque, atualmente, é onde as pessoas passam a maior parte do tempo. Pesquisa realizada em 2012 aponta 96% da população brasileira vivendo no universo online e navegando em redes sociais, segundo a comScore. Outra pesquisa da Nielsen diz que a busca por meio de mídias sociais já representa mais de 18%.

Por isso: é importante realizar ações para ser encontrado por meio desses canais sociais.

Segundo a diretora executiva da agência especializada em mídias sociais, Big Bang Comunicação, Bibiana Riedhorst, o Brasil possui mais de 80 milhões de internautas, 67% deles utilizam as redes sociais. Nelas, 89% pesquisam produtos e serviços e 48% consideram a opinião de outros consumidores publicadas na internet antes de comprar. 

Tops - As redes sociais mais acessadas no mundo e no Brasil, com base nas estatísticas do Alexa, foram pesquisadas em dezembro de 2011. No mundo todo, as pessoas escolheram, do quinto ao primeiro lugar, MySpace, LiveJournal, Twitter, Youtube e Facebook como suas redes mais acessadas. Já no Brasil, o ranking do primeiro ao quinto lugar é LinkedIn, Twitter, Orkut, Youtube e Facebook. Estão certos os que criam de cara ou somente o Facebook, pois ele é o canal dos canais no mundo e no Brasil. Mas tem que manter o conteúdo profissionalmente.

Na Pré-História - Não é de hoje que os seres humanos - ou até mesmo o homem da pré-história - interagem através de mensagens. Pode ser que os seres da época tenham criado um sistema de comunicação nas rochas parecido com o de uma rede social. Segundo o pesquisador de Cambridge, Mark Sapwell, no site Brasil Escola, paredes rochosas localizadas no nordeste da Rússia e no norte da Suécia contavam com imagens semelhantes que eram produzidas em diferentes épocas. Seria um tipo de apreciação positiva do desenho original, uma forma rústica da ferramenta “curtir” do Facebook, por exemplo. Além disso, havia desenhos acrescentados ou complementares, como “comentários” que garantem a transmissão de ideias dos usuários da mesma rede rochosa. Para o cientista, as pinturas não eram mero registro. Também funcionavam como uma rede de diálogos e manifestações daquilo que outros autores “postavam” nas paredes. 


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Para se aprofundar mais no assunto, o livro Redes Sociais Corporativas, do Instituto Desenvolve TI, apresenta a história das redes sociais no contexto do marketing digital, comportamento do consumidor e comunicação entre empresa e cliente no ambiente online. A obra aborda principalmente o cenário empresarial e o relacionamento com clientes que se sociabilizam.

18 de fevereiro de 2013

FOLGADOS

De olho nas facilidades, o folgado confunde muito esperança com espera. Imagem:  Riscando 7

Valdívia Costa

A folga e o abuso são manhas sorrateiras. De mãos dadas com a fala mansa e necessitada, a pessoa folgada sai, galgando confortos. Quem o sustenta? Inocentes. Eles são bons e, por isso, não cobram colaboração. Ao contrário. 

Por isso, largo é o sorriso e o modo de viver do que deita e rola se escorando nos outros. Uma pia de pratos sujos e uma lavanderia cheia não são corretivos suficientes para este ser totalmente imune à luta.

Agir com abuso, passando por cima da bondade alheia, usando de artifícios pouco convincentes, mas se livrando das responsabilidades... Uma rotina sem maiores preocupações ou manutenções a serem feitas. É a vida do folgado, este ser pré-histórico que se adaptou às modernidades.

Não fosse pelo duro trabalho de convencimento, o folgado seria apenas um mero preguiçoso, que, ao invés de ter cuidado da própria vida, ficou a espreitar e cobiçar a vida dos outros. Ou a “mendigar na família”, física e intelectualmente.

De todas as manhas, o discurso é uma das raríssimas habilidades em que o abusado mais se apoia para viver. Despreocupado, entre uma esquivadinha e outra, ele é quem se lastima sempre da falta de amigos, da ausência de oportunidades e ainda reclama do que conseguiu. 

O folgado acha que a vida deve sim lhe entregar reservas, mesmo ele não as providenciando. Afinal, tem sempre os bons, ouvindo, dando a mão ou um empurrãozinho.

Nas suas ânsias de escaladas sociais, folgados aos montes conseguem o sucesso explorando, sendo inconvenientes e maldosos. Muitos são tão escrotos que nem se dão ao trabalho de ocultar as falas ingratas ou os gestos excessivos, depois de conseguirem o que almejaram. 

Ah, como são ensolaradas as manhãs dos folgados! Assim, eles encontram a sombra e se deitam. Porém, dá para reconhecê-los (e evitá-los!) pelas atitudes despersonalizadas! Pequenas ações, como tomar emprestado e não devolver, demonstram falta de caráter. 

A folga, neste sentido pejorativo, devia ser crime de má conduta, como roubar e caluniar. Principalmente para atos mais requintados, que exigem persuasão, como ocupar cargos importantes e não corresponder com trabalho. Ou querer tirar dos outros serviços camuflados de “favores”.

Porque quem procura meios de vida mais “fáceis”, menos trabalhosos, acaba querendo se impor como superior. Consegue viver sem esforço próprio e ainda é recompensado pela pseudo existência. Que melindres tem o folgado! Sendo poupado da guerra que é o dia-a-dia para honestos e corajosos!
 

14 de fevereiro de 2013

AMARELITUDES

Quando os nós se desatam... | Imagem: Arte de Luiza Pannunzio, designer de São Paulo.

Valdívia Costa

Nessas manhãs em que o amor está pelo avesso... estendido em toda sua amarelitude, por cima de uma cadeira velha, exalando um cheiro de preguiça mofada... nem parece o amor... mas é. E ainda assim, desprovido de toda sua beleza, sujo, entregue ao comodismo, ela o ama.

Nessas tardes que se separam, que alimentam a intolerância um no outro, em que o amor fica por trás das coisas insignificantes, trêmulo, achando que não existe mais... ela sofre de inquietudes, mas esboça meio sorriso tingido de uma vontade que não há. Sobretudo, ela o ama...

Nessas noites de tremenda falta do que fazer, desfazendo as malas ou não, copulando com ondas cibernéticas ou sem elas... não se sabe onde o amor se faz! Muitas vezes, ele faz as falas dizerem bem mais do que a realidade exprime... “Queria dizer que amo... a alguém”.

Dela (e para ela!) parte esse desejo. Por isso ela o quer inteiro... Não só sem dúvidas como sem dívidas! Mas amar é bifurcação, uma divisão às vezes injusta, porque... Por mais que queiramos estar sós, o amor convida alguém...

Esse "aparecer" estende-se não só pelo corpo da pessoa, como segue por dentro da alma... Por isso que, um dia, ela o desamará, por não saber mais cuidar. Um dia o amor falecerá... Tão fraco e desbotado, tão sem forças que não resistirá ao verso da página a ser virada.

29 de janeiro de 2013

AS BRUTAS QUE SOFREM

Entre nomes, apelidos e outras palavras, jaz um possível touro desenhado a milhares de anos; "Rosilda", uma anônima, reescreve a história sobrepondo uma das mais antigas artes, a rupestre. | Fotos: Val da Costa

Por Valdívia Costa

Shiii... Agora a gente vai fazer um esforço telepático para ouvir um pedido de socorro. Fui à Pedra do Touro, na cidade de Queimadas, no Agreste paraibano, e ouvi gritos. Ao subir ofegante o rochedo de 50 metros de altura, as brutas, duras, rijas e aparentemente insensíveis pedras do sítio arqueológico começaram a chorar. Suas inscrições rupestres, incluindo a do touro, que deu nome ao local, e até as formas rochosas, são violentadas diuturnamente.

Riscos grosseiros escrevem nomes anônimos... acreditam numa súbita aparência naquele lindo e colossal lugar? Desenhos horrendos, que contornam as inscrições como se as destacassem... fingimento para cobri-las, apagando-as? Tintas das mais diversas naturezas impregnantes... Um plano terrível para substituir a arte rupestre? Assim é o atual panorama de um dos 12 sítios arqueológicos que esta cidade “preserva”. Onde estão os guardiões da floresta e das pedras, que não derrubam esses vândalos e constroem defesas para a Pedra?

Na falta de internet e papel,
vândalos preferem deixar seus recados amorosos
no sítio arqueológico Pedra do Touro
Para chegar lá em cima só exercitando muito a panturrilha... É sacrificante – para quem é sedentário, lógico. Mas, ao chegar no alto e ver tanta beleza num giro de 360 graus, tudo passa... Ai, ai... só fica a sensação de bem estar. E o vento, que insiste em conversar. Isso, para quem vai apreciar, conhecer e até pesquisar a Pedra do Touro. Porque tem gente bem mais dura que essas pedras, e que esmagam um patrimônio... Porque existem estúpidos que têm cérebro, mas não usam. Aí, suas cabeças embrutecem, mais do que as pedras...

Um achado desses, que guarda nossa história humana em expressões artísticas, devia estar atraindo pessoas interessadas em preservação ou turismo ecológico. Segundo a historiadora Melissa Araújo (UEPB), no Complexo da Pedra do Touro é possível fazer trilhas, práticas de rapel e ainda visitar mais de 13 sítios arqueológicos existentes no local.

“Assim, a cidade de Queimadas é um verdadeiro museu a céu aberto, que merece ser protegido e conhecido para que as gerações futuras tenham a possibilidade de aproveitar aquilo que foi deixado pelos antepassados”, escreveu em artigo publicado recentemente no site do Sicoob.

Em cada pedra, uma pichação grande e feia
Como chegar - Quem vem de Campina Grande sentido Queimadas, é encantadoramente recebido por pedras poéticas que formam um bloco esticado, do lado direito, às margens da BR 104. É a Pedra do Touro, que chama a atenção pela sua grandiosidade. Um paredão simpático, que se pudesse falar diria: “Sejam bem-vindos! Subam em mim e tomem uma fresca, por gentileza!”

De acordo com o blog Tataguassu, a rocha é do tipo granito intrusivo e tal afloramento constitui um dos mais incríveis monumentos de pedra da Paraíba. Fica no Boqueirão da Serra do Bodopitá. O paulista, geógrafo e professor universitário brasileiro Aziz Nacib Ab'Saber, considerado a maior autoridade em Geografia da atualidade no País, fotografou a Pedra do Touro.

“A Serra de Queimadas, nas bordas do Boqueirão, que separa as colinas de CG, com relação às estiradas estepes do sertão dos Cariris Velhos. Diaclases tectônicas verticais e horizontais, blocos tombados e cancluras; vegetação rupestre e matinhas de vertentes baixas”, legendou. 

Esta inscrição está numa fenda, ainda protegida dos vândalos
Itacoatiaras – A Paraíba é rica em pedras e arte rupestre. O sítio arqueológico Pedra do Ingá, outra cidade bastante visitada, é o exemplo de como manter essas riquezas. Mais preservado e transformado em ponto turístico, o que protege mais o local, essa Pedra é um conjunto rochoso repleto de intrigantes inscrições rupestres, chamadas Itacoatiaras, produzidas em baixo-relevo. O paredão tem 46 metros de comprimento por 3,8 metros de altura e fica no lajedo do riacho Bacamarte.


Itacoatiaras do Estreito de perto
Itacoatiara é uma palavra de origem tupi que significa Ita = pedra + kwatia = lavrada, rabiscada. Esse tipo de “escrita” surgiu não se sabe exatamente onde, quando e nem quem foram os autores. 





Inscrições do Estreito estão
quase encobertas pelo lodo
e também pichações
Nas pedras paraibanas, as Itacoatiaras mais conhecidas são as do Ingá e do Distrito do Estreito, em Campina Grande. Gravados em rochas duríssimas com perfeição extraordinária, segundo a revista Tarairiu, tais gravuras repousam em rochas no leito de rios, riachos, poços e pequenos mananciais hídricos de todos os continentes (SANTOS, 2008).




Descida em pedras do Estreito,
caminho para Itacotiaras 
As inscrições apresentam-se com diversos sinais ambíguos. Segundo pesquisadores, compõem um surpreendente sistema de signos que foram gravados no passado através de sulcos largos, profundos e muito bem polidos. Uns dizem que os desenhos são atribuídos a finalidades e artífices diversos, desde antigas etnias indígenas até povos vindos de outros continentes ou alienígenas vindos do firmamento sideral.

Pinturas Rupestres - A arte rupestre é um dos mais importantes vestígios deixados pelos paleoíndios, conhecidos como caçadores-coletores. É o período que se estende desde os primeiros sinais de ocupação humana até o estabelecimento da agricultura e outras práticas. No Brasil são encontradas diversas manifestações dessa expressão.

Os locais mais conhecidos são em Naspolini (SC), no Sul do país, em Lagoa Santa, Varzelândia e Diamantina, próximo à cachoeira da Sentinela, em Minas Gerais, na região de Prata, próximo a Serra da Boa Vista. No Nordeste, destacam-se a Toca da Esperança, região central da Bahia, no estado do Piauí, na Serra da Capivara e muitos registros no Rio Grande do Norte, principalmente nas regiões do Seridó e na chapada do Apodi, como o Lajedo de Soledade.

Em Pernambuco encontram-se pinturas rupestres no município de Itapetim, nascente do rio Pajeú, nos sítios Boa Vista e Riacho Salgado e nos municípios de Afogados da Ingazeira e Carnaíba, na Serra do Giz, próximo ao povoado da Serra Carapuça. Segundo informação da Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), de São Raimundo Nonato, há 260 sítios arqueológicos com pinturas no Parque Nacional da Serra da Capivara, criado em 1979.